“O
espelho está farto de futuros” – Sylvia,
uma
das personalidades
de
Jane maluca na
Patrulha
do destino (vol. 30)
Leio meu
texto e percebo seu fracasso. É que falar de Flex Mentallo é uma tarefa tão difícil quanto ingrata. Feita por
Grant Morrisson e Frank Quitely, a obra foi publicada como série em 1996 e,
finalmente, é lançada entre nós pela Panini, em um encadernado belíssimo.
Morrison dispensa apresentações. Já Quitely, um dos meus desenhistas favoritos
e que é responsável por inúmeros trabalhos de peso com seu habitual
colaborador, infelizmente não. O escocês começou a parceria com Morrison justamente
em Flex Mentallo, trabalho que seria
seguido por clássicos como We3, Grandes astros: Superman, Novos x-men, entre outros.

O processo de referenciar
Charles Atlas, já inserido na mídia que veiculava a história, ainda que de
forma paratextual, e redimensionar sua presença, confundindo os níveis do
objeto estético, é a primeira sacada brilhante do roteirista. Além
da metalepse proposta, sugere-se também o poder de transformação que os
quadrinhos detêm, podendo se relacionar diretamente e de forma construtiva com o
real. Os poderes de Flex seguem esta linha e são incríveis, como é comum no hall
de personagens bizarros da Patrulha. Toda vez que flexiona os músculos, a
realidade é alterada de alguma maneira, movimento que é acompanhado de uma
auréola na qual está escrito “herói da praia”. A “homenagem” rendeu um processo
a DC Comics, o que impediu a republicação da história até 2010. Eis o background da atual edição.
Pode se
dizer, pecando pela síntese, que o enredo da obra se divide em três partes.
Flex se envolve com um grupo terrorista, a faculdade X, enquanto procura um
antigo conhecido, O Fato – famoso por suas frases feitas que afirmam o óbvio
(no contexto da Patrulha do destino) e que funcionam de maneira irônica neste
novo universo. Ao mesmo tempo, Wallace Sage, o criador de Flex e Fato, mas
também um grande rock star, está sendo atormentado por delírios, causados pelo
uso de drogas pesadas, o que o faz fantasiar com sua infância leitora de
quadrinhos de super-heróis, enquanto conversa com um desconhecido ao telefone,
o que permite a Morrison uma digressão emocionante sobre a nostalgia dos
quadrinhos antigos. Contudo, estes ambientes não são distintos e é difícil
saber qual deles é real, visto que se interferem mutuamente. Cercando tudo
isso, há ainda um universo mais amplo no qual os super-heróis temem sua
extinção, causada por uma energia maléfica denominada “Absoluto”. Ela foi
responsável por ter enviado os heróis para o mundo ficcional (sim, aqui eles
existiram um dia) e agora torna-se a grande causa que os expulsou de volta para
a vida. Sendo assim, tudo é posto em cheque, a ficção a tudo contamina, e, nesse
furor metalinguístico, Morrison e Quitely mostram todo seu brilhantismo.
Já na introdução
do texto (cuja história, leitor incauto, foi totalmente inventada), reclama-se
da dificuldade em lerem-se os quadrinhos “moderninhos”, já que “tem que ser um
novo Einstein ou Stephen Hawking para entender o que diabos se passa nesses
gibis.” Esta discussão estará presente em todo o trajeto de Flex e se relaciona
com o momento em que a obra foi originalmente publicada, uma vez que ela se relaciona
com a “crise das infinitas terras”, evento que acabou com os universos
paralelos da DC na década anterior, mantendo uma única versão de cada herói,
algo que Flex Mentallo revê (principalmente no último volume em que a “Legião
das legiões” enfrenta o absoluto). Flex, portanto, também é um herói
sobrevivente de uma “crise” em seu mundo.

Mais do que
isso, na primeira cena da obra, O Fato está fora de quadro e joga a bomba que
dará início a realidade, espécie de big
bang que é substituído, em uma refinada transição, por um ovo (signo da
criação de nova vida). As mesmas páginas mostram Flex visto de muitos pontos de
vista, num repertório angular diverso que manifesta seu ingresso na
multirrealidade, além de expressar certo fetiche com o arquétipo do
super-herói, destrinchado pelos olhos ávidos do leitor (p. 16 -17).
Seguindo esta
múltipla focalização, análoga aos múltiplos aspectos do real, Morrison pode
voltar a um dos temas que mais o intrigam e que pululam em todas as sagas da
Patrulha do destino, ou seja, a impossibilidade de fixar um conceito de real.
Na sua contribuição à série dos heróis, temos inimigos como os homens-tesoura
que recortam as coisas da realidade, ou o difícil caso do quadro que engoliu
Paris. Aqui, retornam os personagens que tem problema com realidade (p. 48) e as
cenas emblemáticas de um mundo no qual a ficção e o cotidiano se intercambiam –
Flex num espaço cheio de portas vê TV (p. 24).

A terceira
página das três primeiras edições, por exemplo, são páginas inteiras de Flex
encarnando uma destas disposições: na primeira, exibindo todo seu heroísmo
bonachão; na segunda, enfrentando suas fraquezas absurdas; na terceira,
amargurado e sombrio, caminhando sobre a chuva; no quarto volume (pós-moderno),
ainda que a página não seja mais a terceira, vemos a célebre imagem de seu
corpo repleto de quadros menores que focalizam certas partes suas, num
exercício de desconstrução quase finalizado. Da mesma forma, a terceira capa é
uma paródia da capa de O cavaleiro das
trevas, mantendo em destaque a tanguinha de Leopardo de Flex. Referindo o
clima sombrio das histórias desta época, a primeira frase do volume é
categórica: “Eu não acredito em super-heróis” (p. 65), que se segue ao
explícito trecho: “Agora os super-heróis são tão merda quanto os rejeitados que
escrevem e desenham e leem eles. Todos os heróis entraram na terapia e não
sobrou ninguém para cuidar da gente.” (p. 75). Toda a reinterpretação do mundo heróico
começa a fazer sentido, afinal “As bombas da faculdade X não destroem objetos,
e sim certezas.” (p. 77). Mais do que isso, a própria decadência de Sage pode
ser lida em paralelo com a decadência dos seus heróis prediletos.

Autor: Daniel Baz
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