
O livro é
composto por 113 capítulos curtos e curtíssimos, cada qual focalizando um
determinado personagem ou situação, algumas delas se interconectando no
decorrer do livro. Se há algum ponto de unidade, este se refere ao espaço: a
US50, uma estrada do Nevada, na qual há uma árvore repleta de sapatos, cuja
origem vai ser contada e desmentida durante todo o livro (até o penúltimo
capítulo).
Antes de
falarmos dos problemas, comecemos pelo ponto forte do livro, ou seja, sua capacidade
inventiva. Muitas são as histórias contadas pelo narrador de Agustín.
Conhecemos um boxeador, cujo objetivo é percorrer a estrada citada a pé; um
hotel que faz um museu de objetos achados; um fotógrafo dinamarquês criador de
duas vertentes estéticas peculiares; um músico que utiliza sons urbanos como
instrumentos de suas obras; anciãos surfistas; para ficar somente naqueles que
aparecem em pouco mais de 50 páginas de romance. Seguem-se a estas inúmeras
narrativas, uma série de citações explícitas no texto e que também provém dos
mais diversos lugares. Lemos o trecho de um texto científico sobre computadores
já na primeira página (p. 9), a opinião de Luis Arroyo sobre realidade
aumentada, uma passagem de Thomas Bernhard (p 59), a exposição de um dicionário
de física (p. 156), entre muitos outros achados.
Seguindo o
caráter paratático, desconexo da narração, muitas destas citações aparecem
deslocadas e não raras vezes descontextualizadas, deixando evidente a
necessidade do restante do texto de onde foram tiradas para serem compreendidas,
a exemplo daquela retirada do livro sobre cinema de Daniel Arijon (p. 70/71)
(que, aliás, oferece uma chave de leitura para a obra, a respeito da qual falarei
a seguir).
Apesar das
muitas histórias e referências, ou por causa delas, o tom de Nocilla Dream é seco e apático. Talvez
acompanhando a despersonalização da cultura de massas que contextualiza seu
andamento de tipo “zapping”. Nesse sentido, Agustín tenta fazer com a televisão
o que John Dos Passos fez com o cinema no início do século. Sua “trilogia U.S.A”, iniciada em Paralelo 42 (tendo um ponto geográfico também como eixo, portanto),
investe na narrativa multifocada de vários cidadãos americanos, entrecortados
por vidas anônimas, história de grandes personalidades e os famosos Camera eyes, capítulos influenciados
pela técnica cinematográfica russa, em uma panorama fragmentado semelhante ao
de Nocilla Dream, ainda que
infinitamente melhor realizado.

É possível,
portanto, ver nos exemplos citados a maneira na qual Nocilla
dream oscila entre o óbvio e o obscuro, entre a constatação mais simples e
o mais intrincado discurso. A forma é ambígua. Seu andamento paratático impede
a subordinação de seus enunciados a um centro e isso fere a teoria clássica da
estética. O discurso claramente se quer barbárie, como se a única forma de
criticar a sociedade que o produz fosse fugindo de suas zonas confortáveis de
enunciação. Como se a única maneira de buscar o novo fosse revelando a
impotência da razão.
A vinculação
deste projeto remete ao modernismo, que impôs aos criadores protegidos sob seu
manto a busca constante de novos padrões organizadores da linguagem. O tempo
foi o principal atingido. Acredito que o espanto diante da sua
irreversibilidade passou a figurar os mundos desordenados das obras
modernistas. Se não podemos mais nos relacionar com nosso passado de forma
natural e orgânica (Proust escreve sete volumes sobre esta procura impossível),
então que se abandonem as relações causais nas nossas representações. Foi isso
que Adorno parece ter visto em um dos pilares de sua teoria estética, ou seja,
a música de Schönberg.

MALLO, Agustín Fernández. Nocilla Dream. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
Autor: Daniel Baz
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