Já falamos aqui no Pato
Fáustico da importância dos quadrinhos autobiográficos no cânone contemporâneo.
Muitos deles, aliás, já foram analisados por aqui. Além da cada vez mais excessiva
espetacularização do cotidiano pessoal (cujo auge se traduz nos inúmeros reality shows que se sustentam há anos
na TV) e de certa descrença generalizada no futuro vindouro (o pós-apocalipse
nunca foi tão especulado), a autobiografia atualmente se legitima pela força do
testemunho, do resgate do passado alheio e da palavra empenhada do sujeito que
sabe melhor do que ninguém o que diz, afinal, foi ele quem viveu para contar.
Certos fenômenos da história
recente, com ênfase no Holocausto e nos regimes totalitários que assolaram o
mundo, estabeleceram o valor cultural da memória e do relato autobiográfico de
uma vez por todas em nosso imaginário, transformando o exercício mnemônico em
um bem comum e uma necessidade jurídica e moral (é o que pensa Beatriz Sarlo em
Tempo passado, por exemplo). Tal
situação marcou algumas das experiências mais fundamentais das histórias em
quadrinhos, a exemplo de Maus, de Art
Spielgman, Persépolis, de Marjane Satrapi,
Retalhos, de Craig Thompson, entre outros.
Contudo, se o costumeiro é o tratamento denso da experiência subjetiva,
preocupado com questões maiores do que a situação imediata do sujeito – algo
evidente nos três exemplos citados anteriormente –Paulo Crumbim e Cristina Eiko,
no delicioso projeto Quadrinhos a 2, se
aproveitam com leveza e humor do capital cultural reservado à autobiografia em
tempos atuais e utilizam o potencial do relato testemunhal de forma
diferenciada.

Os autores usam da coesão da
vida vivida para explorar uma série de situações episódicas de suas existências,
em um ritmo frenético e polivalente que é a corrida diária destes dois
“funcionários” da arte sequencial. No volume 1, o relato se centra na ida dos
dois a Comic Con no Rio de Janeiro. Já o segundo, apresenta um conjunto heterogêneo
de situações, começando pela hilária adoção do cão Pino –“Se até um mendigo
consegue ter um cachorro, por que nós não?” (p. 27) – atingindo seu ápice ao fim,
quando ambos vão na FIQ em Belo Horizonte e encontram outros quadrinhistas como Vitor
e Lu Cafaggi, Damasceno, Daniel Werneck, entre outros. Aí reside o principal
atrativo da história feita a quatro mãos: acompanhar a rotina dos quadrinistas
em busca de reconhecimento e espaço (a cena da fila de autógrafos na FIQ é de
cortar o coração).

As primeiras páginas do
primeiro volume se pretendem paratextuais, narrando a ideia inicial para o
álbum em si, além de servirem como uma apresentação metalinguística dos autores, representados
pelos seus
alter egos icônicos, que, na
verdade, são eles mesmo, num círculo vicioso de ficção. Estes recursos
metanarrativos serão seguidos por outros, cada vez mais bem sucedidos ao longo
dos dois volumes, com ênfase nas páginas perdidas que são transcritas em
tamanho menor, pois os arquivos restantes estão em baixa resolução (p. 39); escolha
essa que rima com os esboços apresentados no final do segundo volume. Assim,
para um andamento tão carismático e até despretensioso, é surpreendente o número
de níveis narrativos e o conjunto de experimentações estilísticas explorados
pelo surpreendente par.
Por muitas vezes, os autores
tematizam a sua preocupação com os leitores, chegando ao ápice de propor um
labirinto (sim, daqueles expostos em qualquer revista infantil) para o leitor
resolver (p. 117), ou usar um “recurso avançado de quadrinhos” para ver Paulo
debaixo d`água com a cara enterrada na areia após dar um mergulho (p. 56-58).
Justamente por esta expressa preocupação com a recepção, os vários recursos
autorreflexivos não caem no pedantismo, já que estão intimamente entrelaçados
com o cotidiano dos personagens, imersos neste mundo de quadros e traços.

E é na exploração deste
repertório cotidiano que os dois volumes cativam de vez. Pendurar um bilhete no
hotel, escolher um restaurante para jantar ou entrar em um evento concorrido se
tornam périplos do tamanho daquele visto em
Moby
Dick, obra que Eiko lê a todo momento durante as viagens. Tudo isso é
tratado por um ecletismo visual que vai do mangá (maior influência na
simplificação do
s seres e nas hipérboles emotivas) ao
quase realista. Prova final de dois autores que sabem muito bem o que estão
fazendo, mas optam (e agradecemos por isso) por um quadrinho leve e cativante.
Sendo assim, a memória aqui importa porque é afetiva e a autobiografia se
legitima por um terreno menos óbvio, o da empatia sem denúncia nem
ressentimento.
Autor: Daniel Baz
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