domingo, 15 de setembro de 2013

Memória sem ressentimento em Quadrinhos A 2



Já falamos aqui no Pato Fáustico da importância dos quadrinhos autobiográficos no cânone contemporâneo. Muitos deles, aliás, já foram analisados por aqui. Além da cada vez mais excessiva espetacularização do cotidiano pessoal (cujo auge se traduz nos inúmeros reality shows que se sustentam há anos na TV) e de certa descrença generalizada no futuro vindouro (o pós-apocalipse nunca foi tão especulado), a autobiografia atualmente se legitima pela força do testemunho, do resgate do passado alheio e da palavra empenhada do sujeito que sabe melhor do que ninguém o que diz, afinal, foi ele quem viveu para contar.
Certos fenômenos da história recente, com ênfase no Holocausto e nos regimes totalitários que assolaram o mundo, estabeleceram o valor cultural da memória e do relato autobiográfico de uma vez por todas em nosso imaginário, transformando o exercício mnemônico em um bem comum e uma necessidade jurídica e moral (é o que pensa Beatriz Sarlo em Tempo passado, por exemplo). Tal situação marcou algumas das experiências mais fundamentais das histórias em quadrinhos, a exemplo de Maus, de Art Spielgman, Persépolis, de Marjane Satrapi, Retalhos, de Craig Thompson, entre outros. Contudo, se o costumeiro é o tratamento denso da experiência subjetiva, preocupado com questões maiores do que a situação imediata do sujeito – algo evidente nos três exemplos citados anteriormente –Paulo Crumbim e Cristina Eiko, no delicioso projeto Quadrinhos a 2, se aproveitam com leveza e humor do capital cultural reservado à autobiografia em tempos atuais e utilizam o potencial do relato testemunhal de forma diferenciada.
Os autores usam da coesão da vida vivida para explorar uma série de situações episódicas de suas existências, em um ritmo frenético e polivalente que é a corrida diária destes dois “funcionários” da arte sequencial. No volume 1, o relato se centra na ida dos dois a Comic Con no Rio de Janeiro. Já o segundo, apresenta um conjunto heterogêneo de situações, começando pela hilária adoção do cão Pino –“Se até um mendigo consegue ter um cachorro, por que nós não?” (p. 27) – atingindo seu ápice ao fim, quando ambos vão na FIQ em Belo Horizonte e encontram outros quadrinhistas como Vitor e Lu Cafaggi, Damasceno, Daniel Werneck, entre outros. Aí reside o principal atrativo da história feita a quatro mãos: acompanhar a rotina dos quadrinistas em busca de reconhecimento e espaço (a cena da fila de autógrafos na FIQ é de cortar o coração).
As primeiras páginas do primeiro volume se pretendem paratextuais, narrando a ideia inicial para o álbum em si, além de servirem como uma apresentação metalinguística dos autores, representados pelos seus alter egos icônicos, que, na verdade, são eles mesmo, num círculo vicioso de ficção. Estes recursos metanarrativos serão seguidos por outros, cada vez mais bem sucedidos ao longo dos dois volumes, com ênfase nas páginas perdidas que são transcritas em tamanho menor, pois os arquivos restantes estão em baixa resolução (p. 39); escolha essa que rima com os esboços apresentados no final do segundo volume. Assim, para um andamento tão carismático e até despretensioso, é surpreendente o número de níveis narrativos e o conjunto de experimentações estilísticas explorados pelo surpreendente par.
Por muitas vezes, os autores tematizam a sua preocupação com os leitores, chegando ao ápice de propor um labirinto (sim, daqueles expostos em qualquer revista infantil) para o leitor resolver (p. 117), ou usar um “recurso avançado de quadrinhos” para ver Paulo debaixo d`água com a cara enterrada na areia após dar um mergulho (p. 56-58). Justamente por esta expressa preocupação com a recepção, os vários recursos autorreflexivos não caem no pedantismo, já que estão intimamente entrelaçados com o cotidiano dos personagens, imersos neste mundo de quadros e traços.
E é na exploração deste repertório cotidiano que os dois volumes cativam de vez. Pendurar um bilhete no hotel, escolher um restaurante para jantar ou entrar em um evento concorrido se tornam périplos do tamanho daquele visto em Moby Dick, obra que Eiko lê a todo momento durante as viagens. Tudo isso é tratado por um ecletismo visual que vai do mangá (maior influência na simplificação dos seres e nas hipérboles emotivas) ao quase realista. Prova final de dois autores que sabem muito bem o que estão fazendo, mas optam (e agradecemos por isso) por um quadrinho leve e cativante. Sendo assim, a memória aqui importa porque é afetiva e a autobiografia se legitima por um terreno menos óbvio, o da empatia sem denúncia nem ressentimento.



Autor: Daniel Baz

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