Mais uma vez, a
Companhia das Letras une um escritor a um desenhista na produção de um quadrinho
diferenciado. A ideia de Joca Reiners Terron, apresentada a RT Features de
Rodrigo Teixeira, e que permitiu a produção de Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr, e A máquina de Goldberg, de Vanessa Barbara e Fido Nesti, apresenta
agora V.I.S.H.N.U, impressionante
quadrinho de ficção científica nacional.
Nele, os brasileiros Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco se juntam ao argumento do
norte-americano Eric Archer para contar uma narrativa original, ainda que sobre
repisado tema.
Em V.I.S.H.N.U, a humanidade consegue
finalmente um grau tecnológico suficiente para a criação de uma inteligência
artificial autônoma e rebuscada: os “dudes”, robôs criados para serem
assistentes pessoais dos seres humanos, podendo dar apoio afetivo, prático e
até psicológico a eles. Entretanto, as máquinas provocam uma espécie de apocalipse
tecnológico quando começam a entrar em pane coletivo (“dudes” que trabalham na
companhia de luz provocam apagões, “dudes” responsáveis pela organização do
trânsito provocam acidentes, etc...) e, repentinamente, cometem suicídio.
Depois da
hecatombe, o mundo está transformado, dividido em quatro regiões, cada qual administrada
por um líder, num contexto repleto de novo atores sociais, dos quais se destacam
os radicais neoludditas que defendem o fim do uso das tecnologias. É neste momento
que surge V.I.S.H.N.U, inteligência artificial muito mais competente do que a
humana e que passa a se comunicar com Leon Wilczenski, responsável pela Gaia,
mais importante centro de pesquisa tecnológico em atividade. Estes centros
surgem para controlar a inteligência artificial em ambientes fechados, os
“limbos”, e tentam entender o que causou falha no sistema dos “dudes”. O
objetivo do autômato é justamente sair deste ambiente que o mantém sob controle
e o limita, pois, aparentemente, a entidade cibernética pode fazer tudo o que
quiser. Junta-se à Leon, no intuito de desvendar as razões da rebelde
inteligência, o cientista greco-brasileiro Karabalis.

Todo o
movimento central da trama envolve descobrir a semântica por trás de
V.I.S.H.N.U. Não por acaso ela assume várias formas durante o álbum e se
comunica geralmente por intermédio de um fundo branco ou à frente de um fundo
estéril e vazio. Mario da Silva Brito disse certa vez que a ficção científica
pode ser a representação da perplexidade do homem na hora histórica em que ele
vive e a encenação desenvolvida pela inteligência artificial é certamente uma
forma de explorar a relação do humano com seus símbolos em geral. O próprio
Baudrillard fala, no primeiro e mais célebre ensaio de seu livro citado
anteriormente, que a simulação também põe em causa a diferença entre o
verdadeiro e o falso e entre o significante e significado. A realidade habitada
por V.I.S.H.N.U, sendo simulada, no sentido de que finge ter algo que não
sabemos se realmente tem, torna-se análoga à situação descrita pelo filósofo, na
qual o mundo perde a fé nos signos e volta-se para a valorização dos mitos de
origem, algo que a mesma V.I.S.H.N.U pode representar (mitologicamente a
inteligência artificial é “o nada que é tudo”). Em determinado momento do
álbum, por exemplo, cria-se uma espécie de culto a ela, motivado por uma música
criada por ela e que, uma vez inserida no cérebro humano, permite a experiência
de um estado de consciência nunca antes explorado.
De várias
formas o álbum trata estes fenômenos visualmente. A expressão gráfica disso,
por exemplo, é o traço deformador que se dá ao luxo de não reproduzir um mesmo
personagem da mesma forma, visto que seus contornos são muito fluidos**. As
identidades visuais de todos são muito inseguras e, não raro, se sustentam por
certos mecanismos tipificadores como barba, chapéu, cabelos compridos, etc...
Por sua vez, o layout quadrado e ordenado da maior parte do álbum contrasta com
o desenho, num jogo gráfico que remete a efemeridade da inteligência artificial
presa no limbo. O formato quadrado se estende para a formatação do próprio
álbum, com 29
centímetros de cada lado. Essa decisão causa um desconforto
material que combina com seu conteúdo. Na nossa estante, o objeto torna-se uma
tecnologia inoportuna, difícil de ser organizada, como o ser central de sua
história. Mesmo as letras também são estilizadas, muitas vezes também desconfortáveis
para o olhar.

Além disso,
para V.I.S.H.N.U o tempo é constante responsável pelo atraso do pensamento em
relação à realidade e, em sua opinião, isto faz parte da tragédia humana. Seu
desejo em “entender a natureza da realidade” (p. 91) torna-se assim mais
obscuro, pois envolve o desrespeito à dimensão mais explorada pelo álbum: o
tempo. Como se tentando resolver isso, e entrando em contradição consigo mesma,
a inteligência constata que “A tecnologia é amoral” (p. 90), mas diz ao
professor Karabalis que “Ser imortal é ser imoral” (p. 99). Entre a imoralidade
e a amoralidade, o final da narrativa envolve a transfiguração da tecnologia em
organismo vivo, uma imprevista forma espaço-temporal híbrida envolvida pelo
nascimento de uma “outra coisa”, outra ética que resolva o universo
especulativo, flutuante e em crise com o qual seus protagonistas tiveram de
lidar.
*Afinal trata-se
de um ser dimensionado pelo que Baudrillard chama de metatécnica, uma
consciência flutuante que desestabiliza as noções de maquinaria e humanidade.
**Lembrando
sempre que o impressionismo é eficaz quando se quer descrever um universo em
franca mudança.
***Em analogia à
origem do nome, já que Vishnu é a entidade hindu responsável pela manutenção do
universo.
ARCHER, Eric;
BRESSANE, Ronaldo; COBIACO, Fabio. V.I.S.H.N.U. São
Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Autor: Daniel Baz
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