“É um momento enternecedor: ei-la em sua casa. Enfim, a pobre criatura
já pode ser pura e santa. Ela pode meditar sobre as coisas e sonhar enquanto
tece, sozinha, o pensamento solto pela floresta. Enquanto o vento do inverno
assovia lá fora aqui dentro, nesta humilde cabana, em contrapartida, há
silêncio. Ela possui certos recantos misteriosos onde a mulher deposita seus
sonhos.” (p. 38) - Michelet
Sylvia
Townsend Warner é uma das mais negligenciadas autoras do século XX. Suas
inúmeras aptidões incluem música, tradução, jornalismo, escrita de contos, cartas,
diários, poesias e romances, entre outras. Nascida em 1893 na região noroeste
de Londres, obteve maior notoriedade pouco antes de sua morte na década de 70. Lolly
Willowes é seu primeiro romance, texto responsável por chamar atenção para
seu talento literário. A obra também foi responsável por fazê-la ganhar notoriedade
nos EUA, o que permitiu que fosse editora do New York Herald Tribune.

As primeiras
páginas do romance são regidas pelo “ritmo regular dos dias e das refeições” (p.43).
A leitura provoca no leitor a exata sensação de uma vida sem percalços ou
qualquer fenômeno inesperado, estando a cargo de Lolly produzir o acaso neste
mundo regrado. Aqui existe a primeira audácia temática do livro, já que a
cultura geralmente associa, aos lugares longe dos centros urbanos, o ideal de
paz, inocência, atraso e limitação, enquanto à cidade cabia a ambição, as
oportunidades, a conturbação (basta ler a introdução de um clássico sobre o
tema: O campo e a cidade, de Raymond
Williams). Em Lolly Willowes, o
espaço citadino de Londres é a morada do hábito e da paz, constante de uma vida
sem reveses, enquanto somente no campo (e na natureza como um todo) há espaço
para as mudanças, no caso, o real progresso da personalidade humana.
Obviamente,
isso se incorpora ao conhecido arquétipo da “mulher selvagem”, mas preferimos
relacioná-lo à ideia subversiva mais geral incorporada no percurso da
protagonista. Para isso, é interessante notar de que forma, durante todo o
romance, as conexões entre Laura e o mundo natural são sutilmente demonstradas
pelo livro. Desde jovem, Laura era leitora ativa e conhecia muito bem as
plantas, duas atividades que se reúnem no livro que publicara quando nova,
chamado A saúde à beira da estrada,
sobre ervas medicinais.
Contudo, um
trecho emblemático, mostra a ruptura com o referencial natural, após a morte da
mãe, o que a insere em uma realidade absolutamente patriarcal:
“Laura
pranteou a mãe usando saias que chegavam quase até o chão, pois a Srta. Boddle,
a costureira da família, era dona de grande sensibilidade e não achava que
pernas à mostra combinassem com luto. Com efeito, as de Laura eram muito
esbeltas e ágeis e gostavam de subirem
árvores e pular feixes de feno, não tendo desejo algum de se aposentar do
mundo e pertencer a uma mocinha. Quando porém, vestiu as roupas novas de odor
tão estranho e, olhando para o espelho,
se viu triste e adulta, Laura aceitou o inevitável. Mais cedo ou mais tarde,
teria de se sujeitar à condição de moça respeitável [...] mais parecia
significar uma espécie de aprisionamento.” (p. 20) (grifo meu)
Justamente
por estar inserida em um universo urbano que destoa de sua real personalidade,
o narrador evoca uma série de relações e analogias entre ela e o mundo natural,
o que fica claro neste trecho em que seus sentimentos são traduzidos por
fenômenos da natureza: “Agora ele (o
sofrimento) a visitava como súbitas tempestades de neve, um repentino escurecer
do céu, uma brancura e um frio efêmeros que se abatiam sobre ela.” (p. 39)
Estas
comparações são perseguidas pelo texto, seja quando Laura vê em um de seus
pretendentes a figura do lobisomem, seja quando se colore como um gerânio colhido
(p. 8), ou quando seu padrão comportamental repousa no ritmo natural:
“Com o passar
do tempo, Laura se habituou a essa recorrente febre outonal, tão precursora da
estação quanto as folhas mortas ou a primeira geada.” (p. 65)
Contudo , o ponto alto deste recurso reside no
momento em que a protagonista passa a transformar mentalmente os habitantes do
vilarejo em animais, isso antes de descobrir que é uma bruxa.
“Para se distrair, moldara a
massa na forma dos moradores da aldeia. Desdobramentos curiosos tiveram vez
durante o processo. O porco-espinho da srta. Carloe inchara até ficar quase tão
grande quanto sua dona. A massa escorrera, deixando um grande buraco no lado do
corpo da srta. Carloe. O Sr Jones ficara corcunda, como se carregasse o diabo
num saco. E o gracioso retrato da srta. Larpent, jovem e elegante em um traje
justo de amazona, acabara torto e deformado até lembrar mais um tronco
retorcido de árvore do que uma mulher.” (p. 115)
Desta forma,
o romance interliga sua natureza selvagem à sua capacidade mágica/comportamental
de transformar o mundo ao seu redor. Sendo assim, a necessidade de transmutação
da realidade, antes de ser um fenômeno fantástico tematizado pela fábula, é a conquista
de um imaginário livre e de uma nova perspectiva acerca da sociedade
circundante, em um movimento alegórico do próprio papel da ficção.
Por
conseguinte, quando descobre que o irmão perdeu metade de seu dinheiro
investindo em negócios sem retorno, mais uma vez é o despojamento do mundo
urbano e o contato com o mundo natural que a tranqüiliza:
“Laura se calou. Esquecera-se de
Henry e das coisas desagradáveis que pretendia dizer a ele. Chegara às fímbrias
do bosque e sentia a brisa fresca no rosto. Tanto se lhe dava o burro, ou a
casa, ou mesmo o pomar ao crepúsculo. Se não pudesse colher as frutas de suas
próprias árvores, não faltariam ervas comuns e frutinhos do bosque crescendo
onde quer que fosse que ela houvesse por bem procurá-los. Quando se envelhece,
o melhor é despir-se das posses, despojar-se como uma árvore, ser quase apenas
terra antes de morrer.” (p. 87)
Ao fim do livro, quando Laura descobre na
comunidade de Great Mop outros indivíduos ligados à magia e encontra em pessoa
o próprio diabo, todo nosso percurso parece finalmente encontrar um terreno hermenêutico
firme, a partir de uma constatação da protagonista. Ao ver o ser das trevas,
ela revela: “Você parece real demais para ser natural.” (p.183).
Ora, esta
afirmação explora a ligação entre natureza e fantasia que coerentemente servirá
de base para a conduta de Laura ao fim do livro. Entretanto, o conteúdo mais
importante expresso pela passagem é a ênfase no olhar crítico e descortinador
que Laura lança aquela criatura que ensaia ser uma figura paterna e tutorial na
nova etapa de sua existência. Isso condiz com uma protagonista que, com muito
custo, adquiriu direito ao seu próprio discurso e a um olhar mais criterioso para
o mundo.

A natureza
indômita da mulher selvagem ligada à imprevisibilidade do contato com a magia
permitem que Laura seja uma personagem ambivalente em todos os sentidos. Por
isso, é impossível tratar de forma unilateral sua personalidade e a dimensão
simbólica de sua situação. Um caminho que poderia se ensaiar é aquele que
relaciona a situação de Lolly à das mulheres do pós-guerra. Sabe-se que, nos
anos de 1910 e 1920, as questões de gênero estavam em alta, principalmente
devido ao novo contexto da primeira guerra mundial em que as mulheres assumiram
um novo papel na sociedade, empreendendo trabalhos antes feitos por homens, já
que estes estavam na batalha. Ao fim da guerra, em 1918, havia 400
mil novas operárias na Inglaterra, informação dada por Carlos Bauer em Breve história da mulher no mundo ocidental. Entretanto, lendo o
romance, nos deparamos com o seguinte trecho:
“A guerra não trouxe as mesmas
oportunidades excitantes para Laura. Quatro vezes por semana, ela freqüentava
um armazém e se ocupava com empacotamento. Saía-se tão bem que ninguém pensou
em lhe propor mudar de trabalho. A sala de embalagens era fria e entulhada,
tendo sido decorada no início da guerra com cartazes incentivando o
alistamento. Aos poucos, eles foram desbotando. O jovem corado e sua mãe
espartana empalideceram, como se tomados de medo, e o manto escarlate de
Britannia desbotou para um tom amarronzado de rosa. Laura acompanhou esse
processo com o coração pesado. Não se permitiria ceder ao simbolismo fácil que
ele evocava. O tempo podia desbotar o tom corado do rosto dos jovens, bem como
o vermelho do manto da pátria, mas o sangue continuava escarlate como sempre e
Laura acreditava que, por maior que fosse sua desaprovação, esse sangue estava
sendo derramado por ela.” (p.
59)
Está-se em
contato com uma personagem fadada à complexidade. Nenhum rótulo lhe compreende,
nem o de mulher casada, nem o de solteirona dedicada à família e nem o de
integrante padrão do culto ao demônio*. Cria-se assim uma nova etapa do
imaginário da feiticeira como figura subversiva. Esta face é ressaltada no
livro A feiticeira no imaginário
ficcional das Américas, no qual a autora Nubia Hanciau conclui que
“As forças telúricas da feitiçaria, o contato
com a natureza, plantas e animais, asseguram ponto de equilíbrio das
protagonistas. Herdado das figuras ancestrais, esse poder incorpora-se às
heroínas por intermédio da memória e vem preencher o espaço deixado pela
orfandade [...] Mesmo que atreladas a espaços limitantes, pelo recurso
disfórico da revolta, as heroínas libertam-se para finalmente viver em novas
cartografias.” (p. 348)
Tendo isto em
mente, a ausência de contextos históricos seguros para interpretar o percurso
de Lolly Willowes é também uma forma de manter a protagonista alienada do
espaço em que transita, fora dos condicionantes culturais que lhe legaram. Por
esta via sua figura deixa de ser somente arquetípica para inserir-se em uma modalidade
antropológica. Como fica claro na página 120, Laura quer esquecer os pilares da
antiga civilização, tornando-se uma espécie de Robison Crusoé (citado
timidamente na página 170) às avessas, pois provoca o próprio naufrágio e pensa
em reconstruir o mundo, ao invés de ambientar sua ilha com destroços do velho
território perdido. Laura quer esquecer tudo. Por isso, o grande momento de
tensão do livro (e a aparição do demônio) ocorre quando o sobrinho Titus lhe
visita sem previsão de retorno, o que desestabiliza sua tia. Laura não quer
mais ser Lolly e o jovem é a representação de um mundo que deveria ter ficado
para trás. A força da rotina narrada nas primeiras páginas é tão presente
(simbolizando a sociedade castradora) que a mulher ainda vive no ritmo antigo e
teme ser subjugada a ele novamente:
“Mas o
coração dela continuava a bater. A
bater no mesmo ritmo cotidiano, uma pulsação regular que a impelia a prosseguir
em direção à nova vida de feiticeira que se abria à frente. Como o corpo já
aceitara a nova ordem das coisas e progredia tão metodicamente a caminho do
futuro, cabia-lhe, pensou, tentar reajustar o espírito.” (p. 139)
Sendo assim,
desesperada pela presença de seu sobrinho, assume, de uma vez por todas, a
influência do demônio, fator que provoca uma instigante reflexão a respeito do
gênero passível de unir as pontas soltas deixadas neste artigo tão errático. Em
uma espécie de tese, ao fim do livro, Laura defende que as mulheres precisam
mais do diabo, pois “tem um imaginação tão fértil e levam uma vida tão tediosa.
O prazer que sentem pela vida acaba muito cedo. Dependem demasiado dos outros,
e essa dependência logo se torna um estorvo.” (p. 184). Nesse sentido, ser
bruxa é uma forma de se libertar de uma sociedade regida por modelos patriarcais,
uma liberdade imaginada, conquistada da mimese para o mundo real: “Por isso nos
tornamos bruxas: para mostrar nosso desdém pelo fingimento de que a vida é uma
atividade segura, para satisfazer nossa paixão por aventura. Não é malícia nem
maldade. Ora, talvez seja maldade,
pois a maioria das mulheres adora isso.” (p. 187).

* Laura também não consegue se
acostumar com a rotina social do Sabá (p. 152). A comunhão, o “um corpo só” de
que fala Michelet, não satisfaz sua liberdade pessoalizada.
** Nunca esquecendo que uma das
leituras mais populares e polêmicas de Robinson Crusoé é a de Ian Watt, quando
este percebe no herói o abandono paulatino da religiosidade que passa a ser
superficialmente sentida, “dominical”, no dizer do crítico.
WARNER,
Sylvia Townsend. Lolly Willowes.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.
Autor: Daniel Baz
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