
John Maxwell
Coetzee é um dos meus autores contemporâneos preferidos. O autor já estabeleceu
sua qualidade em obras impecáveis como
A
espera dos bárbaros,
Desonra e
projetos impertinentes, a exemplo de
Elizabeth
Costello. Li seu mais novo romance,
A
infância de Jesus, na época de seu lançamento, mas esperei algum tempo para
estar apto a falar sobre ele. Ficará claro o porquê.
A história
acompanha dois personagens, um homem e um menino que, chegados do mar à Novilla,
recebem novos nomes e tem de se adaptar a novas vidas. O menino, que agora se
chama David, trazia uma carta contando sua origem, mas a perdeu no navio, lugar
em que conheceu o homem (agora denominado Simon), e que, a partir de então,
passa a ser seu responsável e protetor. Ambos devem falar espanhol, língua
usada nesse novo mundo, e recebem novas datas de nascimento como indício máximo
de que sua vida pregressa ficou para trás. Simon se engaja então a encontrar a
mãe do menino, ainda que David não lembre nem do nome nem do rosto dela.
Logo, o
estranhamento da adaptação é sentido na nova terra. Os habitantes de Novilla não
sentem desejo sexual, não almejam nada em suas carreiras, vivem, portanto, uma
existência sem pulsões. A comida não tem sal, assim como a linguagem não tem
ironia. Os prazeres são praticamente inexistentes e o ideal da moderação, da
vida regrada e ordenada a partir da recusa da desmedia, rege o mundo. Sendo
assim, a trama do romance une a simbologia bíblica que intitula a obra com
certos traços de romance distópico:
“A música que
ouvimos não tem peso. Nosso ato sexual não tem peso. A comida que comemos,
nossa dieta enfadonha de pão, não tem substância – falta a substancialidade da
carne animal, com toda a gravidade do sangue derramado e do sacrifício por
trás. Nossas próprias palavras não têm peso, essas palavras do espanhol que não
brotam do nosso coração” (p. 75)
Como ocorre
neste tipo de romance, os dois protagonistas irão desafiar, de formas
diferentes, as normas vigentes. Simon tentará melhorias na relação inter-humana
(geralmente, por intermédio de chistes e do sexo) e no trabalho. Neste espaço, por
exemplo, afronta a realidade ao redor quando sugere a solicitação de um
guindaste na estiva para que os trabalhadores possam fazer as tarefas em menos
tempo, ao que um colega responde: “‘Dava, sim’ o capataz concorda. ‘Mas para
quê? Para que fazer as coisas em um décimo do tempo? Nem tem nenhuma emergência
acontecendo, nenhuma falta de nada, por exemplo’” (p. 22); deixando claro que
um mundo sem aspirações é também um mundo sem urgência.
Para
propormos, entretanto, um esquema conceitual que permita a interpretação, ainda
que aberta, de A infância de Jesus é
necessário ver a forma pela qual David também subverterá as regras da sociedade,
principalmente quando passa a frequentar a escola. Apesar de ser mais
inteligente e sensível que o normal, o menino não consegue ler, nem contar, o
que revela sua insubordinação aos códigos estabelecidos. Ao invés de ler,
prefere abrir os livros e inventar suas próprias histórias. Sendo assim, o
romance traçará um paralelo entre ele e Don Quixote, já que o menino só começa
a se interessar pela instrução quando tem contato com o clássico de Cervantes. Assim
como ocorre no clássico espanhol, na obra de Coetzee há uma série de níveis
entre a perspectiva dos protagonistas e o mundo que os cerca, sendo que o
romancista pode brincar com a discrepância entre a determinação
emotiva-volitiva do herói e a formatação de seu ambiente. Em casos como este, o
ambiente não apenas transcende a consciência do herói como a critica ou a
ironiza. Além disso, Quixote é um modelo de espontaneidade e libertação em um
mundo marcado pela obediência e medida, o que o erige como paradigma do tipo
encarnado pelos personagens de A infância
de Jesus.
Contudo, o enredo dá outra pista acerca de
suas intenções, algo que, infelizmente, os comentadores do romance vêm
ignorando. Nocilla, a nova terra onde se localiza a narrativa, está livre da
história, como dizem os personagens em um dos muitos diálogos filosóficos que
constituem a obra: “‘Se a história, como o clima, fosse uma realidade superior,
então a história teria manifestações que conseguiríamos perceber em nossos
sentidos. Mas onde estão essas manifestações?’ Ele olha em torno. ‘Quem de nós
já viu seu boné sair voando por causa da história?
Houve um silêncio. ‘Ninguém. Porque a
história não tem dessas manifestações. Porque a história não é real. Porque a
história é apenas uma estória inventada [...] A história é simplesmente um
padrão que vemos no que passou. Não tem nenhum poder para atingir o presente”
(p. 128-129).
Além disso, os personagens
não recebem e nem se importam com as “notícias do mundo” (p. 74).
Ora, se não
há referenciais históricos precisos, então todos os sentidos ainda são
possíveis e, por isso, este romance é tão polêmico e muitos reclamam da
dificuldade de construir uma interpretação coesa dele. Estamos no terreno descrito
por certos textos de Frederic Jameson no qual o passado nada mais é do que uma
realidade alternativa e não mais um ponto fixo de onde emerge o presente. Da
mesma forma, as referências históricas que temos são insuficientes para
construirmos um sentido ideológico estável a respeito do livro, ainda que possamos
falar em Marx, em Foucault, em Freud, e, especialmente, Tomás de Aquino, para
quem a verdade é a conformidade da “coisa” com a “inteligência”. Em certa
passagem do romance, lemos: “Não tem lugar para a Inteligência aqui, só para a
coisa em si.” (p. 126). E essa ausência de transcendência marca justamente o
mundo abandonado por Deus que, para Lukács, possibilita os tipos que preenchem
a forma romanesca.
Ao lermos A
infância de Jesus sabemos que os acontecimentos históricos que munem nossa
enciclopédia de leitor pouco afetam Nocilla. Sequer o passado dos protagonistas
a afeta, em um interessante espelhamento. “O preço da nova vida é o
esquecimento” (p. 71); é o que se lê em dado momento. Por isso, o autor investe
na presença farta de diálogos, já que eles performam a imediaticidade da ação e
do mundo ficcional. Isso também aparenta longas passagens de A infância de Jesus com o gênero do
romance de ideias, explorado fartamente por Coetzee em Elizabeth Costello e A vida
dos animais.
Sendo assim,
pode-se concluir que aquilo que mais desconcerta neste novo livro de Coetzee é
que nenhum dos campos semânticos abrangidos pelo livro permite que o incluamos
na nossa noção fluida e geralmente agregadora de “progresso”. Extremamente
contraideológicos, já que seus personagens não conseguem se adequar a sociedade,
ocupando funções e aceitando padrões de comportamento delineáveis (mais uma vez
rendendo tributos ao cavaleiro da triste figura), Simon e David conseguem se
configurar como “sujeito” sem determinantes ideológicos precisos e rastreáveis,
já que até mesmo certos ideais revolucionários de ambos terminam sem efeito e
contundência. Percebemos os opostos, entendemos certos subtextos, mas nem
paradoxos, nem a dialética pode configurar uma leitura completa desta estranha
aventura de J.M Coetzee.
Autor: Daniel Baz