

A respeito disso, é bom frisar
que os personagens abundam na obra de Sardam, criando uma poesia que o próprio
autor definiu como “sem eu”, repleta de sujeitos que traduzem o mundo para um
eu que raramente se textualiza, a exemplo de “Capitão Busto”:
A Pomona sem braços
e a Vênus de Gesso
ledas passeiam
com Capitão Busto
Ai!,que bom...
no carrinho de mão
pelo fundo do quintal
à volta da carranca
do Fauno da Fonte
o vento ruge
geme...assovia...
Capitão Busto borbulha
Vênus gorgoleja
Pomona crocita
Que vamos fazer, Capitão?...
Vamos pescar no Mar Morto
algum caranguejo
Multimilenar que seja...
Algumas ostras
dopleistoceno
Sabe-se lá?...
Ai!,que bom... (p. 22)
Muitos também são os textos,
como esse, em que a abundância de reticências, ironicamente usadas ao lado de
pontos finais, sugerem a impossibilidade de determinar sentidos definitivos
para os versos. Além disso, a maioria dos poemetos ganham significado apenas
após a leitura do todo, já que seres e situações retornam em várias passagens,
ideias se reciclam e voltam em poemas subsequentes, como o trio das paginas 12,
13,14, 16. Em cima das páginas, sílabas e letras se acumulam dando o tom do
texto, ou simplesmente confundindo o leitor.
O teor ideológico dos textos,
concordando com sua expressão, é também caótico e variado e pode, em dados momentos,
ironizar antípodas como socialismo e capitalismo. A primeira imagem da obra,
por exemplo, já é extremamente ambivalente como o distinto conde Lotrak
tentando matar o “baratão voador” que pousa em sua lapela:
Conde
Conde Lotrak
nobre semblante...
cospe em cima mata
o baratão na lapela!...
Não adianta,Lotrak
lá se foi lá se foi ele...
zaft-zoft-zaft
o Baratão Voador
As reticências no segundo verso
funcionam como dispositivo irônico e serão complementadas pela dualidade de um
“nobre semblante” ligado aos verbos de ação absolutamente questionáveis “cospe”
e “mata”. A consciência de um narrador que se dirige à personagem em segunda
pessoa no quinto verso é o distanciamento paródico que empresta mais força ao
universo criado pelo poema, solução amplamente usada por Sardan. O humor, por
vezes, tateia grandes questões, mas desconcerta a própria temática dos poemas,
por intermédio do tom empregado. Dessa forma, os próprios conceitos resultam
inseguros em um exercício deliberdade e rebeldia poucas vezes visto. Veja-se o
genial poema “Expresso”:
Na dialética os
opostos
se tocam quem partiu
de Moscou pra Berlim
acabou
chegando mesmo a
Moscou
passaram a locomotiva
pro rabo do comboio

Autor: Daniel Baz
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