
Apesar da simplicidade do plot, é na condução da história que Mary apresenta uma qualidade narrativa
incomum. O primeiro quadro mostra, de um plano inferior, os galhos sombrios das
árvores, cujo caminho levam à casa da bruxa. Nenhuma figura humana é vista.
Estamos em terreno selvagem e isso evidencia a dualidade (enfatizada também pelo
uso do P&B) da bruxaria, que consiste em tomar as rédeas das forças
naturais em prol de interesses pessoais.
A seguir, a única página dupla
do álbum apresenta a frente da casa da acusada. Mais uma vez, a ausência de
cores garantem o ar sombrio do cenário, assim como a largura do enquadramento
intensifica o mistério de seu interior. O leitor está prestes a adentrar em um
mundo desconhecido e antipático. Apesar disso, o desenho da acusada é genial,
pois mostra uma mulher cabisbaixa e visivelmente fragilizada. Pega de surpresa,
uma de suas mãos segura as costas da cadeira, enquanto a outra repousa
inofensiva sobre um prato vazio. Contudo, ao redor da sala, há um contorno
negro que recorta a figura feminina indiciando sua verdadeira natureza.

A bíblia, no momento da
execução da pena, aparece aberta e com as páginas viradas para o personagem que
a lê de frente para o leitor. Não vemos sua face. A palavra religiosa no seu
ícone mais poderoso e sumário retorna ao fim, no velório dos filhos da
autoridade, mas, dessa vez,podemos a face de tristeza do religioso e o livro
sagrado que ele segura já não tem mais a mesma força, destituído inclusive de
título. O fogo opressor nas tochas que queimam a mulher também surge agora
domado nas velas que ardem em primeiro plano ao lado do cadáver das crianças.
O chão aparece em Mary em apenas dois quadros. Na cena da
morte do gado, representando a consciência dura da realidade maléfica que
assola o povoado, e na página final, em que um ângulo superior narra o derradeiro
êxodo do vilarejo, adensando, mais uma vez em bases concretas, a desgraça. Bachelard
em dois livros excepcionais explica como as imagens relacionadas ao solo formam
dois sistemas, um que se relaciona com os devaneios da vontade outro que remete
ao sonho do repouso. O autor ao erradicar o solo de praticamente toda sua trama
e desenhá-lo unicamente nos dois exemplos citados nega as duas saídas aos
aldeões que desafiaram a bruxa. A terra se associa com a morte e com a derrota
representada pela fuga e pela desmotivação.

Autor: Daniel Baz
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