
A narrativa
apresenta dois níveis bem claros. Em uma mesa de bar um grupo de amigos
questiona o protagonista a respeito de seus casos amorosos. Este, vencendo um
constrangimento inicial, passa a contar uma por uma de suas derrotas
sentimentais, sendo este o verdadeiro conteúdo da obra, emoldurado pela
conversa informal do grupo. A primeira sacada de mestre reside na disposição
dos quadros que trata de forma diferenciada estes dois universos. A história em
si é contada basicamente por intermédio de três quadros por linha, três linhas
por página, enquanto que as passagens dos amigos conversando são representados
em dois quadros por linha.
Tendo um tema
único como centro, a narrativa se preocupa em representar a experiência humana
em situações cotidianas que o envolve, algo que é enfatizado principalmente
pela simplificação dos espaços - recurso presente também em Pagando por sexo, de Chester Brown,
resenhado aqui - e pelas hipérboles nas expressões. Estes dois recursos são
usados na cena em que tenta dar flores de aniversário para garota por quem está
interessado (p. 16-17) ou quando resolve sua última e aparentemente mais séria
paixão (p. 58)

O interesse
de seu amigo, manifestado já na contracapa do álbum (mais um indício de que
este universo é quase para-textual), também é o nosso próprio interesse.
Entretanto, sabendo que a solidão de seu herói é o componente emocional mais
forte da trama, o autor não deixa de manter a tradicional separação dos
quadros, com sarjetas feitas de lacunas brancas, como que respeitando o
universo particular de cada um destes seres, mesmo quando em grupo.
Outra
estratégia utilizada para intensificar a solidão do protagonista refere-se à
recorrência de cenas em que muitas personagens preenchem um mesmo quadro falando
ao mesmo tempo. Tal recurso ressalta a insignificância dos transtornos do
herói, já que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, despreocupadas em
ajudá-lo/consolá-lo. Quando falam ao mesmo tempo dentro de um mesmo recorte
espacial, aos balões cabem a função de situar o leitor no tempo e essa
sincronia vozes fortalecem o coro coletivo pluritemporal, o que realça a
solidão e isolamento do protagonista.

Autor: Daniel Baz
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