Sidney Gusman
é o nome por trás de uma revitalização da obra de Maurício de Souza, ao
idealizar os projetos MSP (50 artistas, mais 50 artistas e novos artistas), que
criaram um inóspito terreno de releituras de vários personagens populares do
quadrinista brasileiro. Depois do sucesso de público e crítica, o editor
idealizou mais um projeto inovador: a Graphic MSP, selo em que autores do
quadrinho nacional executam releituras de personagens famosos de Maurício em
edições em torno de 68 páginas. Para 2013, estão previstos os trabalhos dos
irmãos Cafaggi com a turma da Mônica, de Gustavo Duarte sobre Chico Bento e a
releitura de Piteco por Shiko. Em 2012, o selo despontou de forma surpreendente
com Astronauta - magnetar. É dele que
falarei agora.

A história
começa de forma inusitada, sinalizando para a mudança de perspectiva
tradicional do herói intergaláctico, ao mostrá-lo jovem, na terra e, o
principal, no sítio de seu avô. Se a cena importa por introduzir um aprendizado
metafísico e prático que será utilizado adiante pelo herói para escapar de
certo obstáculo ao fim do volume, também introduz a diferença do caráter de
Astronauta – ávido por aventuras e descobertas – inserindo a temática da “vida
e suas transformações” (p. 7), uma das tônicas da narrativa. A seguir,
Astronauta parte em uma missão cujo objetivo é coletar dados acerca dos
magnetares, estrelas de nêutrons emissoras de altos níveis de raios x e
radiação gama, cercados por um anel de asteróides de metal e gelo.
Após uma
rocha metálica danificar sua nave, Astronauta deve lidar com a própria solidão,
tornando-se uma espécie cósmica de Robinson Crusoé. É preciso notar que a vida
à deriva no espaço exige que astronauta estabeleça uma rotina de sobrevivência,
o que o obriga a lidar com a ojeriza pelo cotidiano e marasmo expressada pelo
herói no início do álbum, quando pensa a respeito da pacata vida do avô. O
tópico ensaiado nas primeiras páginas do volume deve agora ser enfrentado pelo
protagonista. Para representar esta dinâmica, Beyruth utiliza uma série de
técnicas. A começar pelo teor cinematográfio da narrativa, presente em seus
trabalhos anteriores, como o excelente Bando
de dois e a sua fetichização do cinema italiano de faroeste. Aqui, quadros
horizontais (p. 24-25, 66-67, 31, por exemplo), simulam a tela cinematográfica
e o andamento em cenas da ação. Além disso, este recurso empresta uma carga
contemplativa à narrativa afinada com a passividade do herói.

Além disso,
são muitas as referências ao cinema de ficção científica. Para ilustrar, tem-se
a enigmática (quase um easter egg) referência a
Alien: o oitavo passageiro, de Ridley Scott (na surpreendente
página 42), justamente no momento em que Astronauta suspeita não estar mais
sozinho na nave, o que o deixa paranóico e transforma a história em uma
observação psicológica do isolamento. Além disso, tem-se a linda referência a
2001: uma odisséia no espaço, de Stanley
Kubrick, quando Astronauta, na linha de David Bowman, tem visões reveladoras de
sua própria identidade.

O ritmo
visual do quadrinho é impressionante, alterando as tais tomadas
cinematográficas - nos momentos de aventura, principalmente - com páginas
inteiras e duplas (em momentos de imensidão ou de forte teor psicológico) e com
a experiência ascendente do tédio, culminando na genial cena (p. 38-41) em que
temos página após página o aumento de vinhetas dentro do quadro, reproduzindo a
mesma sequência de desenhos (astronauta comendo, usando o banheiro, se
exercitando, etc.), com o intuito de significar a exaustiva e repetitiva rotina
diária do herói. O quadrinho sinaliza para a própria forma, num exercício de
captação do tempo poucas vezes visto. A montagem dialética, em tese e antítese,
também rende bons momentos, como na transição da cena 45 para 46 em que
Astronauta monta uma armadilha para o intruso e cai nela ele mesmo. A cena, por
um lado, demonstra a paranóia do personagem que é seu próprio inimigo, mas
também revela a inconstância de sua situação mental, cheia de altos e baixos
(Astronauta em pé e decidido x Astronauta caído e confuso). Assim, o interior
do personagem guia as escolhas técnicas da história.
Por fim, vale
falar um pouco das cores feitas por Cris Peter, uma das profissionais mais
competentes do quadrinho nacional. São várias as decisões acertadas da
colorista: o tom alaranjado da primeira cena, remetendo ao calor mútuo da vida
no sítio do avô; o azul do espaço e do gelo, em contraste com o rosa incidental
e, aos poucos, cada vez mais presente nos momentos de revelação e de
experiência quase extracorpórea que Astronauta vive (reforçada por uma cor tão
distante do ambiente representado); a transição do negro - referência ao espaço
e a morte iminente do protagonista – para o branco (73-74), culminando na
atenuante (talvez até demais) página final.

Enfim,
Astronauta Magnetar é mais um quadrinho
brasileiro no topo dos últimos lançamentos. Além disso, indo do interior
regionalista do país ao espaço sideral, da normalidade do núcleo familiar ao
devaneio metafísico mais impressionante, este primeiro álbum da Graphic MSP
parece representar os limites do imaginário do romance gráfico brasileiro
atual.
BEYRUTH, Danilo. Astronauta – Magnetar. São Paulo: Panini, 2012.
Autor: Daniel Baz
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