“Embora tenha
relatado os incidentes e conversas que compõem esta graphic novel de maneira
razoavelmente fiel à minha memória, você deve ter em mente que a memória não é
exata” – Chester Brown (p. X)
“Então, a experiência
de pagar por sexo não é vazia quando a gente paga à pessoa certa” – Chester
Brown (p. 227)

As histórias
de caráter autobiográfico já chegaram aos quadrinhos faz algum tempo. Somente
nos últimos anos, no Brasil, foram lançados trabalhos como
Adeus, tristeza, de Belle Yang,
Retalhos,
de Craig Thompson, e
Persépolis, de
Marjane Satrapi para ficar com os exemplos mais populares. De todos estes,
nenhum aborda com tanta naturalidade um assunto tão polêmico como
Pagando por sexo, último lançamento de Chester
Brown. Nas palavras do próprio autor, no prefácio da edição: “Neste livro,
registro todas as vezes que paguei por sexo até o final de 2003 e todas as
prostitutas com quem tive relações depois disso.” (p. IX). Sendo assim,
acompanharemos durante mais de duzentas páginas a descoberta de um mundo
fascinante e sensível que se esconde por trás de preconceitos e zonas de
generalização difusas, em um percurso que aborda uma série de posturas morais,
das quais a mais importante questiona a validade do amor romântico na sociedade
atual (proveniente do conflito brilhantemente resumido: “querer transar, não
querer namorar”).
Tudo isso é
contado em uma técnica narrativa muito precisa. A começar pelo ritmo visual
imposto pelo quadrinista, num padrão de dois quadros por linha, quatro linhas
por quadro, totalizando um esquema de oito quadros por página. O esforço de
criar uma norma rítmica tem duas funções básicas em Pagando por sexo. A primeira delas, como já foi percebido em outros
quadrinhos aqui no Pato Fáustico, cria uma zona de familiarização com o leitor,
na mesma medida em que trata de conteúdos com os quais ele provavelmente não
está familiarizado. A forma, assim, é a primeira garantia de previsibilidade,
facilitando a inteligibilidade de uma temática aguda. Mas, mais do que isso, a
repetição da estrutura da página também ajuda a erigir o clima de rotina e de
naturalidade que permeia todas as relações durante toda a história, numa quebra
de estereótipos que anseiam por tramas envolvendo perversão e violência (algo
discutido pelos personagens), e que nunca acontece.

Entretanto,
nem tudo é previsibilidade em
Pagando por
sexo. De forma muito engenhosa, Chester Brown varia certas sutilezas
compositivas, com destaque para o tamanho diferenciado dos capítulos, realçando
o caráter particular de cada programa vivido pelo protagonista, o que impede
que se banalize o ritmo do relato. Outros recursos icônicos são também muito
bem utilizados. Ainda no primeiro capítulo, intitulado “Minha última namorada”
as principais escolhas lingüísticas são estabelecidas. As imagens dos seres
geralmente se mantêm estáticas com poucas transformações nas longas cenas de
diálogos (principalmente entre o protagonista e seus amigos). Isto, aliado à
ausência de expressões fortes no rosto de Chester, ajudam a compor seu caráter
decidido e compenetrado (e não temos surpresa quando ele contabiliza, na página
60, quanto gastaria com uma namorada para ter menos sexo do que com as, mais
econômicas, prostitutas). A mesma decisão narrativa que enfatiza o enorme
número de pensamentos emitidos pelo protagonista e que circundam sempre suas
ações. Assim, algo que poderia ser esteriotipadamente corporal, torna-se um
fenômeno essencialmente psíquico. Além disso, as personagens das prostitutas
nunca tem seus rostos revelados, o que aumenta ainda mais a importância dos
monólogos interiores de Chester e sugere que suas amantes são uma construção
tão pessoal e reflexiva que escapa à figuração. Pontos para o autor.

Com relação
aos desenhos, o ponto de maior interesse é o traço genérico utilizado para
realçar mais a abstração dos seres do que seu realismo. Estamos diante de um
tipo de arte que usa a simplicidade para falar de temas adultos. O que é sempre
um tributo ao movimento underground dos quadrinhos pós Harvey Kurtzman. O autor
se concentra nos traços específicos, isto é, usa padrões gerais para definir um
sujeito que participa de situações nada gerais. Assim, a facilitação a partir
da identificação com o personagem equilibra o afastamento sentido pela situação
que ele vivencia. Além disso, a pouca informação visual serve também para
ressaltar o discurso dos envolvidos.

Ao fim do
volume, páginas e mais páginas de anexo revelam as opiniões do autor acerca dos
assuntos abordados em sua obra. No paratexto, Chester Brown se sente à vontade
para ser ainda mais explícito e responder aos argumentos de quem condena sua
escolha de vida. Sem medo de ser planfetário, o quadrinista exige uma função de
sua arte ainda que fora da dimensão estética. Seria um uso redutor e condenável
não fosse a qualidade narrativa da história de
Pagando por sexo.
BROWN, Chester. Pagando
por sexo. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
Autor: Daniel Baz
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