
Eric Parker, 28
anos, gênio da especulação financeira, o que o torna bilionário, decide cortar
o cabelo. O fato de o presidente estar na cidade, seguido da morte de uma expoente
astro do rap, transformam a cidade em um caos, tornando a banal decisão do
protagonista o início de uma epopéia pelas ruas engarrafadas e hostis da
cidade. Boa parte do romance se passa na limusine de Parker, espaço artificial
que permite o movimento do personagem enquanto este garante sua estaticidade, o
que converte o automóvel no símbolo da pós-industrialização e da lógica mínimo
esforço/máximo de resultados – além de ser índice explícito da alienação que o
fará cair antes do fim da história.
Durante o
dia, Eric irá se envolver em uma série de diálogos reveladores do absurdo de
sua existência, como o médico que constata que sua próstrata é assimétrica ou a
excitação sexual atingida sem contato físico e com a participação de uma
garrafa de plástico. Para piorar sua situação, alguém está decidido a matá-lo, crise
que o torna ainda mais paranóico e ajuda na reflexão do seu modo de existência.
Consciente disso, o autor estabelece dois tipos de narração, uma em terceira
pessoa - que acompanha Eric - e outra em primeira pessoa – usada para seguir o
raciocínio de seu assassino. Dessa forma, a única consciência a que temos
acesso é a do antagonista do herói, o que também enfraquece a mundivivência de
Parker .

O auge deste
tipo de procedimento é atingido em passagens que sinalizam para a discrepância
entre os atos e suas causas, criando sintagmas em que as ações se alienam de
suas motivações: “Ela mergulhou o dedo no drink depois esqueceu de lambê-lo” (p.
111). Para finalizar, certas informações não acrescentam absolutamente nada ao que
foi dito anteriormente e garantem o lugar de elementos sintáticos que já não
tem nenhuma função, mas que nem por isso são descartados: “O que faz as pessoas
espirrarem? Um reflexo protetor das mucosas nasais, para expelir material
estranho.”
O que torna
todos estes exemplos citados eficazes é a maneira como eles se articulam com a
atividade responsável pela situação de Parker, ou seja, a especulação
financeira. A ideia principal deste tipo de atividade é justamente consistir em
um trabalho sem ato, feito em um tempo indissociado das ações humanas. Por isso,
este tipo de atividade econômica, característica dos tempos atuais, estipula
uma nova dimensão humana do tempo, em que as ações presentes estão desvinculadas
de suas conseqüências imediatas. Por outro lado, a especulação deposita valor
temporal humano em um futuro ainda não vivido, mas que já está cheio de ações
transcorridas em um tempo ainda inexistente. Assim, o futuro, carregado de
responsabilidade, se torna urgente e algo precisa acontecer para compensar a
disritmia. A narrativa é uma forma de ressincronizar o tempo ao presente. Sendo
assim, a lógica do novo capitalismo flutuante insemina o discurso também com
sua qualidade gratuita e disfuncional.

DELILLO, Don. Cosmópolis. São Paulo: Companhia das
Letras, 2003.
Autor: Daniel Baz
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