
Craig
Thompson está vivendo o que provavelmente é seu auge criativo. Depois de
conquistar a cena dos quadrinhos mundiais (e os prêmios!!!) com
Retalhos, em 2003, o autor volta com o
aguardadíssimo novo álbum
Habibi, e
não decepciona. A trama do novo trabalho apresenta Dodola, menina vendida pelo
seu pai para se casar com um escriba. Quando seu marido é morto, a personagem começa a se prostituir para sobreviver. Durante sua trajetória, salva o menino negro
Zam de ser escravo e passa a cuidar dele, assumindo o papel de mãe e irmã mais
velha. A trama segue a vida de ambos, após se separarem e vivenciarem duas
surpreendentes histórias que seguem paralelas até o reencontro ao fim.
Também em paralelo,
é construído um repertório de histórias míticas, extraídas do Corão, e que
estabelecem dois estratos narrativos, um vivido pelos heróis, e outro povoado
pelos mitos e lendas que dão sentido à sua existência. Os dois personagens vão
reinscrever o espaço mítico no seu percurso, reatualizando em vários momentos as
histórias ancestrais presentes nas escrituras sagradas. Isso empresta um
caráter transcendental à narrativa, em que nada tem apenas um sentido, mas possui várias camadas de interpretação e produz inúmeros universos semânticos.

Assim, a
narrativa associa a história de Dodola à de Buraq - criatura que, de acordo com
o islamismo, transportou Muhammad – Maomé – de Meca para Jerusalém (p. 233 e p.
245), para ficar em um exemplo mais relevante. Em outras oportunidades, ainda
mais interessantes, o autor explora uma série de efeitos gráficos relacionados à
transcendência do mundo material, a exemplo da maleabilidade dos quadros que
acompanham os movimentos dos heróis e parecem se amoldar à sua vontade em
certas passagens (p. 214-215 e p. 314). Em determinado momento, romper as águas
para nadar é também mover os contornos do quadro (p. 445). Os trechos citados
lidam com uma ética assumida pelas escolhas discursivas que se comovem com as
dificuldades vividas pelos heróis, o que ajuda no nosso próprio envolvimento.

Certos
quadros exploram com mais perseverança os elementos transcendentais que compõe
a obra, o que fica visível na formatação de alguns recursos. Característico disso
são os balões feitos da fumaça do narguilé (196, 203, 239), uso emblemático, já
que, como disse Eisner certa vez, o balão é um recurso extremo que nasce do esforço de
reter algo etéreo, o som, e, por isso, já é naturalmente uma tentativa do
material sígnico em transcender os próprios limites. Aqui, o recurso ganha mais
força ao notarmos que até mesmo a maneira como as letras são escritas interferem no
sentido, ao possibilitar diversas entonações aos atos de fala diegéticos. Em
Habibi, esta é uma dimensão essencial da interpretação. As letras revelam
muito por intermédio de sua dimensão imagética que capta camadas tênues de sentido, a
partir da espessura, ondulação, posição na página, etc.
A diagramação
do livro é cheia de preciosismos que dispersam nossa atenção. Procedimento que
atesta o caráter efêmero da condição dos personagens já que na borda dos
acontecimentos, isto é, nos detalhes, sabe-se que há tanta carga valorativa
quanto no centro icônico dos episódios. Nesse sentido, alternar muitos
planos em uma mesma cena também combina com a ênfase nos estratos mais obscuros
da existência, como o religioso e espiritual. Sendo assim, é nas coisas que
ainda não vimos (nós e os personagens) que pode estar o valor mais essencial do
mundo.
Ao fim da
narrativa, duas frases ditas pelos personagens podem ajudar na difícil tarefa
de sintetizar seu efeito maior no leitor:
“Minha
oração, como toda oração, é um desejo de deixar este mundo.” (p.598)
“Como terei
acesso a seu ponto de vista, Alá? Você é UNO. Eu estou partido em pedaços.” (p.602)

Craig
Thompson, a partir dos recursos gráficos que o notabilizaram, tenta a épica
tarefa de achar unidade estética em um mundo estratificado. Como resultado
disso,
Habibi é um espaço narrativo
em que o desejo de superar/deixar este mundo é também a necessidade de
reverenciar sua solene complexidade.
THOMPSON, Craig. Habibi. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Autor: Daniel Baz
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