sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Pato Fáustico - Black Kiss (Howard Chaykin) e Wilson (Daniel Clowes)

Uma obra-prima dos quadrinhos está neste videocast do Pato Fáustico: "Black Kiss", de Howard Chaykin. Além dele, "Wilson", do também aclamado autor Daniel Clowes, encerra a dobradinha preparada por nós. Confiram!!!!


Sexo e telefones na era pós-jazz


A primeira página de Black Kiss (1988), graphic novel de Howard Chaykin, apresenta o mesmo cenário visto através do mesmo ângulo. A única diferença é o movimento dentro do quadro de uma gata, que captura um filhote para amamentá-lo na próxima página. Nos balões que saem da secretária eletrônica centralizada no quadro lemos, ao mesmo tempo, coisas como:

“Eu sou uma putinha de pernas longas e olhos azuis, com fome de sexo...e consigo pensar nas suas mãos subindo pelas minhas coxas... me acariciando do jeito que você sabe que eu gosto...”

Sexo e cuidado juntos, num dos quadrinhos mais polêmicos dos últimos 40 anos. Depois desta cena, somos apresentados ao ícone Dagmar Laine, irmã gêmea da estonteante atriz Beverly Grove. Acontece que Grove é o único álibi do jazzista Cass Polack, que é acusado de ter matado sua esposa e filha, pois estava com ele quando tudo ocorreu. Paralelo a trama básica, crimes, misticismo, heresias, satanismo e sexo, muito sexo.
Na primeira cena sexual (p.13), envolvendo a “cega”, a personagem surge com parte de cima em negro e a parte de baixo em branco, num contraponto explorado em toda a narrativa. Na página, há apenas uma porta e nada mais. A simplificação do espaço obviamente realça as personagens, mas, aqui, também sugere um simbolismo que percorrerá todo o desenvolvimento da trama. Uma fronteira fechada, alienada do resto do mundo, com lógica própria e espantosa, como mostra o rosto do homem, na mesma cena. A simbologia do trecho é reforçada na página 48, em que fechar a porta não é unicamente ter privacidade, visto que enxergamos através dela, admitidos no mundo das perversões privadas.
          Neste terreno, a comunicação é complicada, seja pelo uso excessivo de telefones (capítulo 1 começa e termina com um deles, que também estão no início do capítulo seguinte) e dos atrasos da secretária eletrônica que, já na primeira parte mostra uma anacronia das informações dadas, algo que o suspense da história só irá enfatizar. O telefone também funciona como uma fina ironia, já que a distância corporal entre interlocutores é obviamente subvertida nas principais cenas da HQ. O problema da comunicação entre os seres está brilhantemente exposto no início do sexto capítulo em que os balões se espalham por um ambiente cheio de pessoas e cujos rabichos estão bem longe de suas respectivas fontes (p. 69), ou quando diálogos de quadros anteriores terminam nos quadros seguintes (p. 118). Nesse sentido, o sexo é o único caminho para as principais revelações da trama, como quando Cass, após transar com Dagmar e Grove, descobre que a primeira é um travesti (p. 54).
Algumas escolhas de Chaykin são geniais, como o uso de rostos recortados e colocados nos meios das páginas. Alguns deles diminuem o espaço à dimensão restrita objetiva das personagens, intensificando o conflito íntimo e denotando a tensão euXmundo, como na página 22. Outros são ainda mais geniais, como o sexo oral em primeiro plano (p. 27), que rima com a cena antes exposta. Falando em rimas, não posso deixar de lembrar também os lugares comuns, como a entrada em uma garagem ser análoga ao orgasmo também na cena anterior (p. 28).
Outros recursos já são mais populares, como o uso revolucionário das onomatopéias (tanto quanto Frank Miller, diga-se de passagem). Cenas como a já citada, onde Cass recebe sexo oral de Dagmar, são seguidas do som do pneu do carro que na parte inferior da cena conecta todos os quadros. Sem falar em outras passagens (p.25), em que o “beep” da secretária eletrônica, o “slam” de uma porta, e o “mmmrrowwwwrrr” de uma gato, servem para ambientar a cena, compõe o espaço sugerindo o estado de espírito das personagens (algo semelhante na página 85).
Muitas referências pop e dos quadrinhos - não posso deixar de pensar, por exemplo, em Spirit, na cena da orgia em que Cass usa uma máscara, num pastiche do herói clássico (p. 86-87); uso preciso dos dispositivos clássicos (rabicho e forma de raio quando um rádio-relógio interrompe a transa de Eric); quadros que extrapolam seus limites para intensificar um momento de extrema violência e tortura (p. 100); todos recursos inovadores, desse noir feito por um fã dos irmãos Cohen e da forma como eles subvertem todos os gêneros com que trabalham.
Chaykin termina sua história no mesmo quadro em que ela começa, mas como em Rastros de ódio, de John Ford, a cena inicial inverte o significado primeiro (a ausência do gato e da mão que surge ao fim para atender ao telefone é quase a vitória da incomunicabilidade). Ao invés de fechar a história, abre-se ao fim um mundo complexo, que parece ter abandonado a explicação para a conduta e a motivação de seus heróis. Sorte nossa que podemos voltar e buscar uma resposta.
 



CHAYKIN, Howard. Black Kiss. São Paulo: Devir, 2011.

Autor: Daniel Baz dos Santos

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Pato Fáustico - O amor nos tempos do blog, de Vinicius Campos

Neste videocast do Pato Fáustico apresentamos o romance "O amor nos tempos do blog", de Vinicius Campos. A estrutura do romance inova ao mesclar a linguagem do blog com o gênero romanesco. Confira!!!

domingo, 24 de junho de 2012

O Pato Fáustico - Guia de ruas sem saída, de Joca Reiners Terron

O Pato Fáustico hoje fala da nova ficção de Joca Reiners Terron, Guia de ruas sem saída: um híbrido entre o romance e a história em quadrinhos.


E aí, que tal? Participe, comente, discuta!!!
O Pato agradece, desde já!

Um livro sem guia, sem saída


A trama básica é assim...é...é...são...é a história de dois paralelos (rindo), que obviamente nunca se encontram...é... um cara que viaja a um país distante, tem um problema físico grave, ele precisa de um transplante de fígado, ele compra um fígado, então ele faz o o chamado turismo de transplante, ele viaja para um lugar que é outro lado do mundo pra fazer essa operação... é... enquanto que em outro plano, em outro tempo da história tem um cara que tá perdendo alguns órgãos e ao mesmo tempo ele está vomitando chips eletrônicos, e ele não sabe da onde vem esses chips e muito menos pra onde vão os seus órgãos, ele simplesmente não sabe, ele vive sedado e tem uma confusão temporal ali, ele não entende o que é passado e o que é presente, mas uma das sugestões, e há diversas possíveis na história, é a de que esse cara era um preso condenado a prisão perpétua, que negociou seus órgãos em troca da liberdade. Então...porém... há um... há diversas confusões ali que ficam ao encargo do leitor interpretar, né? Você não sabe se o que acontece nas imagens realmente aconteceu, se é lembrança dele, ou se é fruto da imaginação de um cara que ficou a vida toda preso e...e simplesmente sonhou em ter uma vida e não teve.*

O livro conta a história de dois personagens: uma cara que tá perdendo seus órgãos e não sabe bem porquê; e outro que faz uma longa viagem pro outro lado do mundo pra receber um transplante de fígado. E esse outro que tá perdendo os órgãos ele é, ou pensa que foi, ou desejaria ter sido, isso não fica muito claro, um desenhista de história em quadrinhos, um cartunista, o criador, um criador de grande sucesso, do Homem-escada, que é um personagem...que é um...é um...é um super-herói meio patético porque né, afinal de contas ele só tem um superpoder que é justamente auxiliar as pessoas a chegar a um outro lugar.**


Acima, o autor Joca Reiners Terron tentando definir a mistura de história em quadrinhos, literatura, e órgãos perdidos que constituem seu mais novo trabalho, Guia de ruas sem saída. Como fica explícito, qualquer tentativa de compreender inteiramente sua história esbarra em um exercício superficial quase inútil, visto que são muitas as possibilidades de associações entre os estratos do enredo. Não é à toa que Terron gagueja e titubeia logo após tentar definir a “trama básica” de seu livro, assim como não pode passar em branco que o magnífico “Homem-escada” esteja ausente na primeira sinopse.
O texto é construído com a parceria do desenhista André Ducci, cujas imagens complementam a trama da ficção. Logo em seu início, somos levados ao tom imaginativo e autorreferente dos contos de fadas a partir do “Era uma vez”, usado com precisa ironia. A prosa tateia as próprias possibilidades assumindo seu hermetismo:

“Era uma vez.
E fim.
Queria começar a história dessa maneira. Era uma vez. E fim. Mas não. Existem outras coisas entre esses dois extremos.
Por exemplo: mãos.” (7)

Entre o começo e o fim, o pesadelo do aleatório e do acidental ronda a configuração de uma estética híbrida. Ambivalência que influencia a perda das identidades das personagens, visto que elas sucumbem até mesmo à confusão das pessoas do discurso:

“Vasculho os bolsos. Uma chave. Abre a porta” (p. 11)

Ou quando as próprias palavras perdem a identidade, ao misturarem-se umas com as outras:

“Que catso de gelo é esse que me queima a pele? Que porra de água gelada é essa? Que puta-que-pariu de lugar branco é este? Meus pensamentos tão embaralhando, tão pensalhando, tão embamento. Que catlo de gezo é esmi pe queima ssenha quele? Gue ágorra de pgua quelassa é eda? Seum mentolhando, não pensaemba. Pue luta-que-pfiu de pusanco garepo, catso, orraralho? Que puta-que´pariu de lugar branco é este, porra caralho? (p. 17)

O signo transracional é mais uma forma de enfatizar as áreas semânticas além do campo lexical conhecido. Assim, após a primeira sequência de imagens (que dura 54 páginas), somos surpreendidos com uma única frase solta no meio da página 76: “Acho que comecei a entender tudo”. Não sabemos qual o limite da memória das personagens. Não sabemos onde termina o “era uma vez” e começa o “foi mesmo assim”, pois o tema central de Guia de ruas sem saída envolve justamente a imprevisível abertura da forma. O romance aceita a história em quadrinhos como potência regeneradora, no sentido de que se renova enquanto gênero ao demonstrar que nada sabíamos a respeito de suas reais potencialidades. Na linha de outros brasileiros, como Ferréz, em Capão Pecado, ou estrangeiros como Sebald em Austerlitz, entre outros, as imagens revitalizam e estendem os limites da gramática romanesca, mesmo que descaracterize o repertório canônico que conhecíamos.
André Ducci mostra uma sensibilidade afinada com seu companheiro escritor. Com destaque para o uso de preto e branco que, em cenas como a do mendigo, por exemplo, e no tratamento dos olhos (inteiramente negros, ou brancos) ajudam a compor o interior dos seres. Além disso, o traço do desenhista enfatiza as formas geométricas, que são respeitadas dentro da anatomia das personagens e na composição dos quadros, como o brilho do mar composto por retângulos pretos e brancos, lembrando Picasso, e cenas como a do incêndio - além dos tons de cinza que não pude deixar de relacionar a Guernica, pois a ausência de cores aqui também contribui para isolar os valores da forma e a tragicidade do tema. Em muitos momentos, as sombras e formas permitem também certa dualidade entre o profundo e o plano, principalmente nas cenas da esposa sozinha no hospital.
Guia de ruas sem saída é um projeto ousado de ficção que permite mais uma vez admitirmos o quão insuficientes sempre serão as previsões do futuro da arte. Quando menos esperávamos ela nos desestabiliza mais uma vez e mostra que vive numa temporalidade em que a fruição não é ainda suficiente para capturar. Um livro sem guia nem saída? Talvez. Mas, com o mesmo super-poder de seu emblemático herói, pode nos permitir o acesso a outro lugar.


TERRON, Joca Reiners. Guia de ruas sem saída. São Paulo: Edith, 2011.

* Entrevista disponibilizada no endereço http://televisao.uol.com.br/videos/assistir.htm?video=metropolis--entrevista-com-o-escritor-joca-reiners-terron-04020D9B366EE0B92326
** Entrevista disponibilizada no endereço
http://globotv.globo.com/globo-news/globo-news-literatura/t/programa-completo/v/achei-que-o-livro-fosse-ser-tradicional-mas-virou-uma-montagem-diz-escritor/1933965/

 Daniel Baz dos Santos