A primeira
página de Black Kiss (1988), graphic
novel de Howard Chaykin, apresenta o mesmo cenário visto através do mesmo
ângulo. A única diferença é o movimento dentro do quadro de uma gata, que
captura um filhote para amamentá-lo na próxima página. Nos balões que saem da
secretária eletrônica centralizada no quadro lemos, ao mesmo tempo, coisas
como:
“Eu sou uma putinha de pernas longas e olhos azuis, com fome de
sexo...e só consigo pensar nas suas mãos subindo pelas minhas
coxas... me acariciando do jeito que você sabe
que eu gosto...”
Sexo e cuidado
juntos, num dos quadrinhos mais polêmicos dos últimos 40 anos. Depois desta
cena, somos apresentados ao ícone Dagmar Laine, irmã gêmea da estonteante atriz
Beverly Grove. Acontece que Grove é o único álibi do jazzista Cass Polack, que
é acusado de ter matado sua esposa e filha, pois estava com ele quando tudo
ocorreu. Paralelo a trama básica, crimes, misticismo, heresias, satanismo e
sexo, muito sexo.


Algumas
escolhas de Chaykin são geniais, como o uso de rostos recortados e colocados
nos meios das páginas. Alguns deles diminuem o espaço à dimensão restrita
objetiva das personagens, intensificando o conflito íntimo e denotando a tensão
euXmundo, como na página 22. Outros são ainda mais geniais, como o sexo oral em
primeiro plano (p. 27), que rima com a cena antes exposta. Falando em rimas,
não posso deixar de lembrar também os lugares comuns, como a entrada em uma
garagem ser análoga ao orgasmo também na cena anterior (p. 28).

Muitas
referências pop e dos quadrinhos - não posso deixar de pensar, por exemplo, em
Spirit, na cena da orgia em que Cass usa uma máscara, num pastiche do herói
clássico (p. 86-87); uso preciso dos dispositivos clássicos (rabicho e forma de
raio quando um rádio-relógio interrompe a transa de Eric); quadros que
extrapolam seus limites para intensificar um momento de extrema violência e
tortura (p. 100); todos recursos inovadores, desse noir feito por um
fã dos irmãos Cohen e da forma como eles subvertem todos os gêneros com que
trabalham.
Chaykin
termina sua história no mesmo quadro em que ela começa, mas como em Rastros de ódio, de John Ford, a cena
inicial inverte o significado primeiro (a ausência do gato e da mão que surge
ao fim para atender ao telefone é quase a vitória da incomunicabilidade). Ao
invés de fechar a história, abre-se ao fim um mundo complexo, que parece ter
abandonado a explicação para a conduta e a motivação de seus heróis. Sorte
nossa que podemos voltar e buscar uma resposta.
CHAYKIN, Howard. Black Kiss. São Paulo: Devir, 2011.
Autor: Daniel Baz dos Santos
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