
Todas estas
questões parecem pertinentes ao exame de Tangolomago:
ritual das paixões deste mundo, do pernambucano Raimundo Carrero, autor que
viveu um trauma pessoal recentemente, quando, em outubro de 2010 sofreu um AVC
(acidente vascular cerebral). Dois meses antes o romancista havia vencido o
Prêmio São Paulo de Literatura pelo romance "A Minha Alma É Irmã de
Deus". Em 2011, sai o romance "Seria uma Sombria Noite Secreta",
terminado antes do AVC, e agora, com este novo título, podemos finalmente
comemorar a recuperação deste notável autor brasileiro. Nele, acompanhamos um
dia na vida de Tia Guilhermina que aparecera em Maçã Agreste (1989) e O amor
não tem bons sentimentos (2007) e cuja história se insere na saga da
família de Ernesto e Dolores, que já conta com mais de meia dúzia de livros. Em
pleno carnaval de Recife, a mulher decide extravasar anos de pudismo e de
reclusão, “Não dava bom dia, não conversava com ninguém” (p. 28), enquanto se relaciona
com o sobrinho Matheus, por quem é apaixonada e que matou e estuprou a mãe e a
irmã.
O romance
relata, com narração onisciente, o périplo da velha mulher, intercalando
trechos de sua história passada, principalmente relacionados a um antigo
carnaval. A rotina de caçoadas a qual está sujeita pelos vizinhos é
precisamente retratada pelo andamento sintático e repetição vocabular, a
exemplo do trecho: “Os meninos gritavam o apelido: puta de anjo! E diziam, e
diziam. As moças, as mulheres fechavam os olhos para não ouvir. Fechavam os
olhos.” (p. 31) A incoerência perceptiva, de um momento festivo experimentado
como tristeza, expressa na passagem será a profissão de fé do fim de seu
percurso, como veremos.
“Tia Guilhermina
parece triunfar com os cabelos brancos e os olhos verdes, e uma estranha
sombrinha feito uma bengala, dando breves passos de dança. É recebida com
apupos, palmas, e ela, pela primeira vez exposta à multidão, não sabe como se
comportar, talvez pudesse ficar ali se tivesse um piano, ou, quem sabe, em
companhia de Matheus, para cantar um bolero ou um tango ao violão. Pura
exibição desabrigada.” (p. 64)
No trecho
acima, a conversão da “sombrinha” em “bengala” e a antitética composição da
aparência física de Guilhermina (“cabelos brancos”, “olhos verdes”) são algumas
das manifestações carnavalizadas da própria linguagem que subverte o sentido
das imagens que ela mesma referencia, corroendo qualquer possibilidade de
unilateralidade discursiva. Neste contexto de inversões semânticas é
fundamental o trecho no qual, em pleno Carnaval, os crimes da ditadura são
representados (p. 72), convertendo a temporalidade icônica da carnavalesca (o
eterno presente) nos fragmentos benjaminianos da história a contrapelo.
Seguem-se a
isso, as imagens corporais, alçando a carne e sua sensualidade aos redutos mais
profundos da semântica da obra, cenas das quais os banhos da tia com Matheus são
as mais emblemáticas, tendo o ápice no êxtase exibicionista, quando fica nua
diante da multidão. A paixão carnal
chega a alterar a narração, quando a protagonista assume rapidamente a primeira
pessoa durante um delírio erótico (p. 39). Contudo, mesmo esta ode às imagens
fisiológicas recebe sua contraparte grotesca em trechos como “Assim, ofereceu a
tia Guilhermina um velho penico para que possa tomar cerveja, diz. E ela ri, ri
com o sorriso que parece carregar sempre naquelas ocasiões. Mas antes de beber,
ergue o penico com as duas mãos e se coroa.” (p. 81); ou quando a velha apanha
de um grupo de jovens mais ao fim do romance.
O desejo
corpóreo também é vivenciado de forma traumática, pois se relaciona com a
desestruturação dos laços familiares, o que nos permite voltar ao postulado
inicial desta resenha. O romance enquanto gênero tem a consciência pesada por
se relacionar intimamente com a ética contemporânea e seus valores. Na sua
tradição e relação com a formação do homem moderno, o “romance familiar” foi
uma das formas do imaginário que mais o preencheu de fôlego, seja pela sua
manutenção (cuja vertente mais célebre é a “educação sentimental”), ou na sua
ruptura (Robinson Crusoé, Moll Flanders, etc...). Tangolomango
pode ser lido nessa perspectiva, pois usa da desintegração familiar para
estabelecer a alienação como valor, cuja lógica corrosiva renega até mesmo o
eterno presente carnavalesco. Contudo, o faz pela sensualização da vida
familiar, mantendo essa mesma desassociação no terreno do trauma e na inscrição
moral da anormalidade, na linha do que fez Flaubert com Bovary e tentou Tosltói
com Karênina.

Autor: Daniel Baz
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