Guadalupe
conta uma história de morte... e de vida.

A morte repercute
silenciosa, mas plena, nas duas únicas páginas duplas do álbum. Aliás, não se
trata de qualquer tipo de morte, mas a tipicamente mexicana, envolvendo rituais
indígenas, mística popular e civilizações ancestrais. Entretanto, é a vida que
aos poucos ganha mais espaço durante a leitura.
A Guadalupe
que dá nome ao álbum foi criada desde criança pelo tio, o travesti-grande-diva-porra-louca
Minerva. No início da história a encontramos no dia do seu aniversário de 30
anos, incomodada com o fato de ainda trabalhar no sebo do tal tio. Tudo muda
quando sua avozinha Elvira - cujo hábito de percorrer a cidade em alta
velocidade sobre uma scooter nos impressiona na primeira cena da obra – morre
ao chocar-se com um tacomóvel. A vivacidade da anciã é uma das imagens mais
fortes equacionando a paridade vida/morte que compõe todo o álbum. Acontece que
a simpática anciã havia feito sua neta prometer que a enterraria em sua terra
natal Oaxaca, com banda de música e tudo. Guadalupe e Minerva adaptam o furgão
do sebo aos moldes de um carro fúnebre e partem. Esta adaptação automobilística
também diz muito da transformação que a protagonista irá vivenciar durante a
viagem, além de subverter a solenidade da morte com um humor que permeará todo
o álbum, formando par com a imagem da vivaz morte da anciã.

Afinal, a
história poderia receber a tônica angustiante e pesada de um
As i lay dying, de William Faulkner, mas
é conduzida pelo viés do humor, e da magia, beirando o surreal em certos
trechos, produzindo uma
Road trip
mais aparentada com filmes como
Família
Rodante, de Pablo Trapero, ou
Pequena
miss sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. No caminho, até mesmo um
grande vilão é introduzido na figura da divindade pré-colombiana Xyzótlan que
manda um arauto (infelizmente desinteressante) atrás da alma de Elvira e teme a
perda de fiéis para as novas religiões. Para combater a ameaça, cogumelos
alucinógenos e a invocação do Village People se juntam ao complexo insólito que
forma a obra.
Apesar das
inúmeras qualidades, das quais já falarei, o principal defeito de Guadalupe é não aproveitar
suficientemente o universo e, mais ainda, os personagens criados. Ao fim do
volume, parece que ambos foram pouco desenvolvidos, o que, de certa forma é um
elogio para a empatia produzida pelo universo ficcional. Além disso, em certos
trechos o humor excessivo e nonsense
é responsável por certas saídas superficiais (como boa parte das resoluções dos
problemas enfrentados). Contudo, todo feito em preto e branco, o álbum
apresenta algumas escolhas compositivas de dois artistas extremamente
competentes.

Começando
pelo traço de Odyr que, se não está tão virtuoso quanto no excelente
Copacabana, explora a linhagem pictórica
inaugurada com o barroco na contramão de um estilo linear e sóbrio. Em várias
cenas de
Guadalupe é impossível fugir
da dinâmica das ações que se sucedem sem um eixo orientador em que o olho, após
observar uma imagem se move contiguamente para as demais. A própria cena da
motoca convergindo para o tacomóvel é exemplar disso. Os contornos dos
personagens são instáveis, ora se perdendo no fundo, principalmente quando ele
é carregado em tintas e em cenas de tensão (um exemplo é a cena do arauto e da
divindade), ora misturando os planos dos desenhos (a cena do camarim enquanto
seu tio se arruma é exemplar disso). O preenchimento das figuras é mais
valorizado e as linhas oscilantes que definem sua silhueta enfatizam com precisão
o insólito de um mundo prestes a se dissolver em dimensões espirituais,
místicas e fantásticas (o que também combina com a ideia de
Road trip em que tudo é móvel e a
revelação de universos novos é uma promessa).

A
expressividade dos personagens também é elaborada a partir de algumas boas construções
iconográficas dos balões e nos tipos de letra utilizados. Isso se soma ao uso
hiperbólico das metáforas visuais em que as aparências do mundo são a expressão
do sentimento humano envolvido. Seja na cena em que o rabecão improvisado pifa,
formando uma silhueta branca em um quadro totalmente negro (e a imagem de uma
caveirinha levita), seja na iconografia da mulher maravilha que adorna a
travesti no combate final, seja no simbolismo do espelho que encerra o álbum.
No desbunde que é a solução da jornada, tudo isso só se torna mais exagerado
ainda, acarretando inclusive na perda da carga emocional do álbum pela ênfase
no humor escachado.
Apesar de
alguns deslizes, a obra mantém a boa qualidade de um corajoso projeto
editorial, no qual a Companhia das Letras une a voz de um escritor à de um
desenhista. O resultado é esta história transformadora e incomum. Guadalupe tira sua personagem homônima
do cotidiano prosaico em que vivia e revela para ela um turbilhão de possibilidades
mais que surreais. O motivo fúnebre desencadeador de todo o périplo rima com a
sensação final de que a protagonista não será mais a mesma, algo morreu a
partir de sua terceira década.

Guadalupe conta uma história de
vida... e de morte.
FREITAS, Angélica e ODYR. Guadalupe. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Autor: Daniel Baz
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