
A história
começa com duas tramas iniciais, a de um barril de material nuclear jogado no
mar e a de um homem que, após observar sua vizinha da janela, decide jogar
roleta russa acompanhado de seu gato. Ambas parecem não ter nada a ver com a
história que conhecemos de Pinóquio. Só parece. Após o fim deste preâmbulo,
somos apresentados aos personagens reformulados do clássico original. Gepeto é
um inventor de armas bélicas, sendo Pinóquio sua nova criação: um robô repleto
de armas e sem nenhuma consciência do certo e do errado (o que o torna muito
semelhante ao menino de madeira do original). Somam-se aos dois a barata Jimmy,
que após ser expulsa de sua moradia decide morar na cabeça do autômato,
servindo de consciência para sua trajetória, a exemplo do que fizera o grilo
falante (mais na adaptação da Disney do que no texto original).

A estrutura
episódica do original é rigorosamente respeitada (ao contrário do que alguns
resenhistas vêm dizendo). Também aqui temos assassinos a espreita em todos os
cantos, também aqui a ganância e a preocupação com o enriquecimento move a
intriga, também aqui o herói é vendido para lucro alheio. Contudo, diferente do
original, este Pinóquio não escolhe nada, não tem opinião, não fala, diferente
do verborrágico boneco original. Neste, o protagonista é uma massa inconsciente
de destruição, manipulada ao gosto dos demais, sendo explorado no trabalho,
enforcado, e saciando o desejo sexual dos demais, o que também favorece as
inúmeras identidades visuais adquiridas pelo álbum.
A sequência
lógica dos acontecimentos segue fidedignamente os ocorridos do trabalho de
Collodi. O peixe cão do original é substituído por um monstro marinho
geneticamente modificado pelo barril da introdução (p. 65). No lugar do teatro de
marionetes, temos Stromboli fabricando brinquedos e empregando Pinóquio em uma
fábrica. Ao invés de fada madrinha, surge aqui a fada da eletricidade (90-91). Mantém-se
do original também a natureza aleatória dos encontros, o cronotropo da estrada
como lugar onde o imprevisível emerge. A imprevisibilidade (inerente também ao
próprio herói) complementa a impossibilidade de sabermos quais histórias irão
se cruzar, a exemplo do contato entre as vidas do policial e da nova versão da
Branca de Neve no desfecho da obra.

Outra forma
de situar a sincronicidade de muitas histórias ocorre por intermédio das
diversas camadas que compõe os quadros ou a passagem entre eles. Um ótimo
exemplo disso é a cena em que o helicóptero de Stromboli cai. Numa perspectiva
distante e em primeiro plano (p. 36), vemos um casal pensar que se trata de um
cometa. As ideologias interpostas também subdividem as temáticas do álbum em
níveis. Basta lembrar que, aqui, Pinóquio é enforcado por não se deixar levar
pelo discurso extremista (remetendo ao nazismo) de um ascendente ditador (p.
83). Mesmo o momento em que o boneco está pendurado por seu pescoço insere
muitas histórias paralelas à sua como pano de fundo.

Na metade do
volume um entrevistador, falando do personagem principal do livro de Jiminy
explica, usando as palavras do inseto autor, que ele é “[...] fruto da união da
minha época e suas mentiras” e segue afirmando: “ ‘Um pensamento em mutação não
encontra espaço nesta sociedade de certezas’” (p. 99). O inseto conjuga o
semema mais amplo da obra original, ou seja, os hábitos mitômatos do boneco, ao
desenvolvimento histórico da narrativa e enfatiza, na segunda citação, o
desenvolvimento morfético de seu herói. Este novo Pinóquio conduz a representação
de um novo tempo em que o imprevisível, o inconsciente, e o aleatório podem sim
se conjugar em um tipo diferenciado de fábula. Uma narrativa por outra. A arte
de levar barata por grilo.
WINSHLUSS. Pinóquio. São Paulo: Globo, 2012.
Autor: Daniel Baz
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