Nihonjin,
livro do paranaense Oscar Nakasato, foi rejeitado pelas doze maiores editoras do
Brasil antes de ser publicado pela Editora Benvirá e de ter vencido o prêmio
Jabuti de melhor romance em 2012. Não é difícil, apesar da premiada trajetória que o livro está
desenvolvendo, entender sua demorada aceitação. Escrito com uma linguagem sem
pretensões e tratando de um tema pouco desbravado no Brasil (a situação do
migrante japonês) é necessário olhar o texto de Nakasato considerando seus possíveis
equívocos ao lado de seus tímidos êxitos.

Dessa forma,
o narrador nos conta uma história de tradição coletiva e, para isso, mimetiza
certas facetas do narrador tradicional, o storyteller,
citado outrora por Benjamin. Para exercer este papel, o contador parte de uma
motivação essencial para a narrativa tradicional, a saber, a ignorância, aliada a ideia de aprendizado pela narrativa: “Sei
pouco de Kimie” (p. 9) anuncia a primeira frase do livro. A personagem citada é
a ex-mulher de seu avô. Depois de uma temporada sem se adaptar ao trabalho no
cafezal, morre saudosa da neve de seu país natal em uma das melhores cenas do
livro, ainda na sua primeira metade.
O ocorrido
prenuncia a relação problemática dos estrangeiros em solo estranho, mas não
exclui o conflito dos japoneses com os seus iguais. Assim, quando Haruo resolve
se contrapor ao patriotismo exacerbado, representado pela organização ufanista Shindo Renmei, seu destino só pode ser
trágico. Além disso, a falta de informação do narrador-herdeiro, se transforma
na presentificação de um tempo antepassado em busca de respostas, o que cria uma
voz narrativa que interfere ativamente em todas as partes do romance,
presentificando muitas das cenas transcorridas com seus avós, ás vezes
simulando o próprio testemunho:
“Depois vi
Kimie observando o piso de terra batida” (p.20)
“Eu vi
Ojiichan chorando no meio da horta, solitário, iluminado pela lua, abraçado ao
cabo da enxada (p. 58).

Essa
desprentensão da linguagem certamente também se transforma em defeito, pois se
a falta de engenho se justifica formalmente, não pode surpreender uma
consciência receptora ávida por novas perfomances lingüísticas. Além disso, em
certos momentos os personagens lembram, no pior sentido, outra obra de nossa
literatura que também se ocupou da figura do migrante em período exatamente
igual. Falo de Canaã, de Graça Aranha,
em que os protagonistas formulaicos em seus diálogos serviam apenas como
depositários de idéias a serem discutidas pelo autor, o que assemelha, em
certas passagens, o livro de Nakasato a um “romance de tese”.
Além disso, a
construção discursiva tende a amarrar orações e períodos, num esforço de manter
unido um universo de identidades flutuantes e fadado ao desaparecimento, como
fica claro na interpolação de coordenadas e subordinadas, tradicionalmente
construídas por uma linguagem sem crises: “Um dia, Kimie ficou muito doente,
queixou-se de grande cansaço, teve febre, e todos disseram que Hideo precisava
levá-la ao médico, mas ele não achava necessário. Que ela descansasse alguns
dias, que ela só era uma mulher fraca e despreparada para o labor sob o sol. E
ele se resignou com o fazer a comida, pois duvidava que Jintaro o conseguisse,
e falou para ele lavar os pratos e as panelas. Então, quando estava a sós com o
amigo, disse aquilo: que Kimie não tinha jeito, que deveria ter se casado com
uma mulher forte, que agüentasse o trabalho na lavoura, que estava perdido com
ela.” (p. 28).

NAKASATO, Oskar. Nihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011.
Autor: Daniel Baz
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