Toda grande
obra de terror investe na dualidade, pois o que assusta mais é aquilo que não
pode ser resumido unilateralmente, ou seja, o que não pode ser completamente
compreendido. O caráter dual do terror/suspense está na dupla personalidade de
herói e heroína em “Vertigo” ou no negro da silhueta contra o branco do espaço
em “O mensageiro do diabo”. Está no moralismo sexagenário do sanguinário Jason,
e fatalmente na consciência melódica que John Williams deu ao semi-invisível tubarão
de Spielberg. Os dois acordes - ritmo binário que materializa a dualidade -
equivalem à dupla face do medo, tã dã tã dã tã dã, bem, mal, certo, errado,
morto, vivo. Ah, Alan Moore, mais uma vez tu já o sabias!
Seu novo
trabalho, o quadrinho de terror Neonomicon,
investe nesta mesma abordagem durante toda a primeira história, aquela que
estabelece o tom de toda a trama sequencial. Nela, o agente do FBI Aldo Sax
decide investigar uma série de crimes cometidos por diferentes pessoas, mas que
seguem o mesmo padrão. Logo, o sujeito estará envolvido numa trama que envolve
letras enigmáticas de rock, seitas secretas e seres sobrenaturais, todos
remetendo a obra de H. P. Lovecraft.
A dupla face do mundo, que esconde
literalmente no seu subterrâneo um universo que lhe subverte está expresso no
ritmo binário da história de sax. Adequado para um percurso polarizado, de
alguém que passa de um lado do espectro social para o outro - de investigador
para investigado. Como em qualquer história de suspense bem contada em
quadrinhos, Alan Moore e Jacen Burrows (o infame desenhista) deixam que o ato
de virar a página se torne o verdadeiro compasso da história. Isso permite que
nos acostumemos com um padrão rítmico, ainda que nada saibamos do conteúdo
enigmático do enredo, e essa familiaridade com algo ainda desconhecido rende a
maior parte da tensão produzida nesta primeira história. O final desta etapa investe
na ênfase das transições, um dos pontos mais abordados pelo próprio Moore
quando escreve sobre quadrinhos. Uma sucessão de quadros idênticos, em que o
protagonista não muda de posição (mesma posição do quadrinho que começa a
história). A força da transformação recai justamente no espaço da sarjeta,
entre um quadro e outro. É ele que atesta (aliado logicamente ao texto) a
transformação do sujeito no seu duplo. Fim do binarismo.
O restante da
história se centra em dois agentes do FBI que, após Sax ter se tornado também
um assassino, passam a investigar o tal culto a Lovecraft. Lovecraft mais do
que sustentar a obra com sua mitologia de seres e línguas ancestrais, rende
também um contexto extra-icônico de referências fluídas, o que aumenta a
expectativa, pois denuncia a insuficiência de nossa iconografia para entender o
mundo diegético. Os autores brincam com isso ao, na cena mais impactante e
polêmica da história (em que uma orgia ocorre), acompanharmos a visão de uma agente
míope e que acaba de perder os óculos, o que torna tudo opaco e indefinível
(indefinição em sintonia com trecho de “O chamado de Cthulhu” em que o narrador
não consegue definir uma das criaturas e atesta o tratamento impressionista
dado a ela, ou seja, com contornos indistintos e forma indefinida). O próprio
conceito de ancestralidade é alterado nesta história, pois se descobre que os
monstros são seres do futuro. Vale mencionar que esta ideia está latente já em
“O chamado de Cthulhu”, quando o narrador compara as estruturas da cidade das
criaturas com as descrições dos artistas futuristas.

Apesar da
fala de personalidade dos desenhos de Burrows, o quadrinho tem algumas boas
soluções. Uma delas refere-se ao momento em que a personagem acima citada tem
que lidar com uma criatura além de sua compreensão. Aqui, a dobra da parede
(formando um “l”) separa os dois seres, mas também as enquadra em dois
contextos distintos, como se fossem quadros autônomos. Isto marca o momento em
que a agente tenta se comunicar com a criatura e um item diegético (dobra da
parede), ao poder ser lido como metadiegético (sarjeta), revela a distinção
entre o universo do compreensível e daquele além de nossas molduras
conceituais.
A história
ainda envolve perversão sexual, se valendo da assexuada figura de Lovecraft,
mas a grande ideia é mesmo a que esta no início da obra. Quem não leu, ainda dá
tempo de deixar o texto aqui, pois irei revelá-la: A droga que faz as pessoas
mudarem seu comportamento trata-se na realidade de uma nova língua. Sim, aquela
presente nas obras do contista norte-americano. A emergência de uma língua
dentro do homem provoca uma revolução na sua personalidade. As novas
associações semânticas, fônicas e sintáticas disponíveis lhe permitem atingir
um novo estatuto existencial, ligado a algo que a realidade ainda está para se
tornar. “Só a poesia ou a loucura poderiam fazer justiça aos clamores ouvidos
pelos homens de Legrasse enquanto abriam caminho através do negro lodaçal em
direção ao fulgor rubro e ao som dos tamborins”, diz o narrador de “O chamado
de Cthulhu”. Como alguém que aprendeu a lição, Alan Moore empresta à linguagem
a base de novas formas de percepção. Lírico e louco. A última dualidade do
terror de Neonomicon. O derradeiro binarismo da cosmovisão de Lovecraft +
Moore.
Autor: Daniel Baz
Nenhum comentário:
Postar um comentário