“Avanço um
pouco mais na floresta. Além da colina, diz o mapa, estão as fontes do Ardèche.
Isso não me interessa mais. A paisagem é cada vez mais suave, agradável,
alegre. Sinto dor no corpo. Estou no meio do abismo. Sinto o meu corpo como uma
fronteira, e o mundo exterior como um esmagamento. A impressão de separação é
total. Passo a ser prisioneiro de mim mesmo. A sublime fusão não acontecerá. A
vida perdeu a finalidade. São duas horas da tarde.”
(de Extensão do
domínio da luta)
Uma antiga
crença conta que as narrativas são imitações de ações. A crença continua em
voga, ainda que hoje ela deva levar em conta as inúmeras descontinuidades que
fundamentam os modelos de representação. Em O
Mapa e o território, de Michel Houellebecq, a realidade e o modelo que a
apreende se conjugam no exercício de estilo que lhe rendeu o Goncourt em 2010.
A história
acompanha a trajetória de Jed Martin, artista plástico com um percurso no
mínimo interessante. Ele começa fotografando ferramentas para provar a tese de
que “a história da humanidade podia em grande parte se confundir com a história
do domínio dos metais” (p. 43); a seguir, fotografa os mapas dos guias
Michelin, na exposição denominada “O MAPA É MAIS INTERESSANTE QUE O TERRITÓRIO”;
por fim, pinta a óleo uma série de profissões (açougueiro, gerente de
bar-tabacaria), produzindo pelo menos uma de suas obras-primas, chamada “Bill
Gates e Steve Jobs discutem o futuro da informática”.

É ao retratar
a própria profissão, no quadro “Damien Hirst e Jeff Koons dividem entre si o
mercado da arte”, que Jed pela primeira vez tem problemas criativos e, num impulso
destrutivo, rasga o que havia feito. Logo após o ocorrido, seguindo uma
sugestão de seu galerista, decide pedir a um grande escritor francês que
prepare um texto para o catálogo de sua exposição. O escritor trata-se de - nada
mais nada menos - que o próprio Michel Houellebecq. É certamente neste momento
que todas as reflexões feitas acerca da arte no decorrer do livro, assim como a
natureza sarcástica de sua obra, podem ser vista em comunhão.
Entretanto,
antes de seguir esta intuição, é necessário explorar algumas características
deste romance de Houellebecq. O narrador de O
mapa e o território, em terceira pessoa, se assemelha com outros textos do
autor. Trata-se de uma voz distanciada da matéria narrada, irônica, cínica, e
produtora de um sarcasmo que vem marcando o tom de toda a produção de Houellebecq, desde o primeiro romance, ainda que este seja narrado em primeira pessoa. É comum
que ele não hierarquize nada, chegando ao radicalismo de, em certas cenas, se
distanciar do tema mais importante para enfatizar episódios laterais.
Isso ocorre,
por exemplo, na terceira parte do romance. Na cena mais impactante da obra, o
foco afasta-se da imagem central de um crime para falar das moscas que cercam o
recinto: “Cada fêmea de Musca domestica é
capaz de botar até quinhentos ovos, às vezes mil ovos. Esses ovos são brancos e
medem cerca de 1,2
milímetro de comprimento. No fim de um único dia, as
larvas os abandonam; elas vivem e se alimentam da matéria orgânica (geralmente
morta e em vias de decomposição avançada, como um cadáver, detritos e
excrementos)” (p. 257)
O cinismo do
narrador, apesar de presente em muitos trechos da obra, obviamente atinge o
ápice na retratação do próprio autor, que não economiza os irônicos epítetos
como “o autor de Partículas elementares”, ou “o autor de Plataforma”, ainda que
o próprio escritor se descreva da seguinte forma: “tenho micoses, infecções
bacterianas, um eczema atípico generalizado, é uma verdadeira infecção, estou
apodrecendo e ninguém dá a mínima, ninguém pode fazer nada por mim, fui
vergonhosamente abandonado pela medicina, o que ME resta fazer? Me coçar, coçar
sem parar, minha vida agora é isso: uma interminável sessão de coceira...” (p. 165).
Houellebecq
trabalha melhor com personagens ideólogos que polemizam e defendem teses sobre
assuntos específicos, o que só aumenta a estratificação da sociedade descrita
em seus livros, já que todos detêm modelos particulares para explicar
determinados fenômenos do mundo. Vale lembrar que o próprio Jed está alienado
de relações afetivas duradouras, das quais as mais importantes são também as
mais problemáticas, isto é, sua relação com o pai e com o romancista
contratado. Durante o enredo, o narrador e o protagonista também não poupam
opiniões sobre os mais diversos assuntos, mas mais uma vez é Houellebecq quem
se destaca, como sua predileção por porcos (p.129), seu lamento pela extinção
dos produtos manufaturados (p. 159), sua postura frente à literatura (p. 156-157), suas ideias sobre a distinção
entre cães e pássaros (p. 241), e claro, sobre a arte. O autor não opina apenas
a respeito da obra de Martin (p. 176), mas também equipara o método de
Botticelli, Leonardo e Rembrandt ao de Koons e Hirst (p. 212), explicando que todos, de certa forma, terceirizaram a produção artística. São consideradas
ainda, as opiniões de Jasselin, detetive que aparece na terceira parte, sobre a
hierarquia da brigada militar (p. 267), e sobre a insignificância da economia (p.
310), para ficarmos em poucos exemplos. Sendo assim, a permanência dos diálogos
socráticos no romance, algo que Schlegel já notara e que se popularizou com
Bakhtin, mais uma vez se mostra uma dimensão fundamental para a compreensão do
gênero. O trajeto dos homens está associado as ideias que eles emitem. A significação do romance é antes de mais nada um grupo d eimagens de ideias.
Entretanto, a
estratégia do autor francês que mais causou polêmica foi o uso de verbetes da
Wikipédia na confecção do romance, o que de fato está em sintonia com o todo da
obra. No final do romance, o próprio autor-narrador, provocativo, agradece a
enciclopédia virtual pela ajuda. O romancista põe em questão o valor da qualidade
autoral para a arte, o que fortalece a escolha de Jeff Koons, retratado por
Jed, visto que o pintor recebeu uma série de processos envolvendo direitos
autorais desde a década de 80.
A estética sempre permitiu vários graus de apropriação
das coisas como elas se apresentam no mundo. Cubismo e dadaísmo que o digam. Porém, se a
ideia de ver o banal como arte um dia foi estética, o foi pelo caráter inovador
e contestatório. Isto é, a prática hoje em dia perdeu o impacto, ou seja, não
mais permite a renovação da percepção ao investir em gatos feitos de flores e
tubarões de dentes de ouro. Entretanto, no livro de Houellebecq a polêmica não
tem fundamento, visto que, como numa colagem cubista, as informações usadas
apenas complementam o todo estético da obra, convivendo com a realidade formal
de seu todo constitutivo.
Pois bem, em
determinado momento, Jed decide retratar Houellebecq e ao terminar o quadro,
o oferece de presente ao escritor. Ao iniciar a terceira parte do romance,
descobrimos que Houellebecq foi morto, esquartejado por alguém que roubou a
caríssima pintura. A morte do autor é miserável, enterrado em um caixão de
criança e batizado, após uma vida negando Deus. Esta imagem deve ser mediada
com o final do protagonista. Este termina a vida filmando objetos industriais
circundados por vegetais e isso simplifica o livro, evocando a epígrafe deste
texto, o desfecho de seu primeiro romance, em que a natureza explicita a
alienação do indivíduo. A máquina fotográfica de Jed - com
padrões pré-concebidos para retratar o mundo (existe um modelo para se tirar
fotografias de “bebês” ou “fogos de artifício”, por exemplo) é sintoma do maior
terror dos personagens de Houellebeqc, perceber que os simulacros inventados
até então não são suficientes para explicar o mundo, ou pior, que no mundo há
algo além destes simulacros com os quais já estamos acostumados.
A cartografia
e o desenvolvimento industrial, portanto, são complementares e há de fato uma
série de conexões entre os espaços que deixam de ser abstrações para o homem
contemporâneo e o desenvolvimento de uma nova consciência acerca do capitalismo,
aquela que revela que, hoje, a modernidade não é mais exclusiva a determinados
grupos. Por isso, a antinomia vegetação/capitalismo criada ao fim do livro,
mais do que esboçar uma alternativa, serve para enfatizar o sentimento de perda
inalienável do dualismo do homem (pós) moderno.

HOUELLEBEQC, Michel. O mapa e o território. Rio de Janeiro: Record, 2012.
Autor: Daniel Baz
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