Vila-Matas é
um obsessivo. Um monomaníaco. Nutre uma devoção doentia pelos duplos, pelas
estruturas em abismo, pelas coincidências, pelas sociedades secretas e, é
claro, pelo seu habitat mais natural – a ficção. Quem conhece sua obra, sabe
que pode esperar um universo infinito de espelhamentos, de citações, o que o
destaca no contexto contemporâneo da hipertextualidade. Afinal, foi ele quem
idealizou o “mal de Montano”, que caracteriza alguém obcecado por livros, foi
ele quem criou os shandys, obcecados
por literatura portátil, é de sua imaginação que surgiram os “bartlebys”
modernos, sescritores que simplesmente preferem não fazer seu trabalho. Contudo, mais
do que unicamente se preocupar com a demonstração da multiplicidade dos
caminhos em tempos atuais, o escritor espanhol parece obcecado com uma
constatação muito mais perturbadora, todos eles já foram percorridos.

A narração em
primeira pessoa vem encaixada com outros trechos que dominam a narrativa e são
narrados também na primeira pessoa, mas de Vilnius. Uma escolha que separa o
texto em camadas, combinando um repertório repleto de níveis diegéticos. Neste aspecto,
o intertexto continua parte fundamental do sentido das obras de Vila-Matas. As
citações explícitas e implícitas servem para sinalizar para fora das fronteiras
da fábula, induzindo o leitor em discrepantes zonas textuais que aliam
Shakespeare, Kafka, o cinema dos irmãos Cohen, Knut Hamsun, e, claro, Bob
Dylan.
O aspecto
intertextual da composição dos textos de Vila-Matas, ao lado do encaixe
narrativo, é uma de suas tantas formas de desconvencionalizar os limites da ficção,
ao enfatizar a artificialidade dos contornos dos muitos textos que se interpenetram,
pondo em relevo sua característica montável. Principalmente pelo fato de que, tanto
a vida das personagens, quanto a ficção (neste texto, geralmente na forma do
teatro, que intitula três dos quatro capítulos nomeados do livro) são
submetidas à mesma entonação narrativa. O drama de Vilnius, por exemplo, no seu
conflito com o pai, é a microtrama que introduz o problema da filiação, esboçada
também nas relações intertextuais. Da mesma forma, Bob Dylan, mais do que ser o
homem de múltiplas faces, símbolo dos tempos atuais, é também um exemplo de
alguém que aprendeu a romper com suas influências, no famoso episódio de sua
desfiliação com o folk.
Dessa forma,
sua vida permite que se qualifique uma ficção de múltiplas personalidades (Ar de Dylan mistura mistério, melodrama,
ensaio, aventura), além de esboçar o conflito da “angústia da influência”, como
tratada por Harold Bloom. Este sendo um dos tópicos mais recorrentes na obra do
escritor espanhol. A história da literatura para Vila-Matas é um combate entre
filhos desgarrados tentando livrar-se das influências dos pais, que lhes
assombram com sua memória e experiência. As relações não respeitam a cronologia
da história literária. Como no sistema descrito por TS Elliot, em “Tradição e
talento individual”, a literatura é um grande complexo sincrônico em que Bob
Dylan pode influenciar Kafka (p. 303), por exemplo.

Por fim, é
preciso mencionar a criação de sociedades secretas por parte dos personagens do
romance, outra obsessão de Vila-Matas, que também retorna com força aqui. Neste
caso, os protagonistas fundam a conjura dos "infraleves", grupo que tem o
objetivo de produzir uma ideia por dia, mas esquecê-la logo após tê-la
comunicado. A ideia de grupos com certas afinidades que se deslocam da
totalidade social para oferecer uma imagem dela, vem complementar a imagem do
texto parasitário que vive de si. O mundo é um conjunto de complexos textuais e
humanos que se interpenetram e que convivem com a impossibilidade da literatura
e da realidade total. Num cenário desta natureza, o autor confia nos pequenos
núcleos, fragmentos da sociedade, que, unidos por crenças que lhes unificam, formam
pequenas totalidades. Estes grupos dedicam suas vidas aos textos. Esta parece
ser uma imagem símbolo desta sociedade nada secreta que Vila-Matas inventou,
composta por aqueles que não podem optar entre vida e literatura, pois não
saberiam dizer onde termina uma e começa a outra.
VILA-MATAS, Enrique. Ar
de Dylan. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
Autor: Daniel Baz
Deu vontade de ler.
ResponderExcluirJá vi que a lista de livros pra depois do doutorado vai ficar imensa.
Estás mais otimista do que eu. Acreditas em vida após o doutorado :P
Excluir