
Ler "A trilogia do acidente”, saga vivenciada pelo detetive Diomedes e criada pelo
mestre dos quadrinhos nacionais, Lourenço Mutarelli, é uma experiência
enigmática. O personagem em busca de desvendar um enigma acaba descobrindo a
fugacidade de tudo, até mesmo das identidades, como nas melhores histórias de
detetive. Por isso, são muitas as cenas que tematizam a problematização do eu, como
aquela em que Judite, mulher do detetive tenta limpar a própria imagem de uma
colher (p. 82). Ou o momento em que, ao errar tudo que deduzira sobre seu
cliente, Diomedes o assiste revelando certas particularidades cruéis da sua
própria existência, o que inverte os papéis tradicionais. Contudo, o trecho
ainda mais intrigante revela-se só na última parte da trilogia, quando o
detetive vai até o festival de quadrinhos em Amadora, Portugal, e transita pelos
grandes heróis da mídia que o celebraram.
Se o
exercício trata-se de uma grande dedicatória de Lourenço a todos os mestres e
personagens que admira, o trecho também serve para mostrar o abismo entre seu
(anti?)-herói e seus pares mais célebres. O espírito aventuresco de Hergé? Sim,
mas com tiroteios e baixo calão. O espírito cômico de Aragonês? Sim, mas com
Schopenhauer e Sartre. O espírito heróico de Stan Lee? Talvez, talvez. Diomedes
está de perfil, os vingadores estão de frente e parecem que o atacam, mas só o
detetive brasileiro se move. Este é o seu mundo. O ápice ocorre quando o herói,
para melhor transitar pelo festival, se traveste de Pikachu, pondo o patético e
o paródico em pé de igualdade e podendo, enfim, habitar o universo do qual
proveio com mais naturalidade. Além disso, aqui a criatura encontra Zigmundo
Muzzarela, o alter ego do criador, num esforço metalinguístico que denuncia os
inúmeros níveis pelos quais estamos transitando.

Mas existem
outros conflitos vivenciados pelo detetive e não menos brilhantes são as
estratégias boladas por Mutarelli para representá-las. Sua história está
repleta de seres deslocados e são várias as soluções estéticas que imprimem
na arte seqüencial esta sensação, como o doutor Gouveia, cuja postura impostada
e o linguajar impecável não pertencem ao ambiente de Diomedes e, por causa
disso, é angulado em quadros que lhe abordam de perfil ou de costas, em poses
desengonçadas. Além disso, as palavras de Diomedes, por exemplo, saem do quadro
em determinado momento (p. 62), demonstrando os problemas do herói em ser
compreendido, além de sinalizar para aquilo que nos escapa e que só pode ser
medido se lemos além do que está no quadro.
E que dizer do pobre palhaço Chupetin? Mesmo
falando de fenômenos sérios e complexos da existência, não consegue impedir seus
ouvintes de gargalharem enquanto discursa (p. 34-35), num conflito entre sua
aparência e aquilo que ele realmente é. Significativo, se notarmos que
descobrir o que as aparências escondem será a missão de Diomedes até o fim de
sua saga. Em certas cenas, enormes balões comprimem os personagens (p. 97),
revelando a força do dito e dos atos de fala, que podem abarcar tudo e a todos,
tornando o mundo mais perigoso. E que dizer da tocante cena final do capítulo
“O grande circo” em que vemos Diomedes se declarar para a esposa Judite - que o
trai – para depois contemplarmos uma página inteira em que, atrás do herói,
está o grande circo e tudo aquilo que ele parece não perceber, ou seja, as múltiplas
possibilidades de sua jornada (basta notar que alguns dos elementos são
elencados isolados nos quadros anteriores).

Ler “A
trilogia do acidente” pelo olhar da identidade, das aparências e das essências, é tentar entrar
no cerne de sua questão. A busca do mágico Enigmo é em certa medida a procura
da fantasia, como Diomedes, lúcido, revela em certo momento: “Eu achava que a
magia era a lembrança ou o esquecimento. Eu pensava que a magia fosse a soma
disso tudo.” (p. 399); e completa: “Para mim, no meu mundo a magia é como esse
filósofo falou... Ela está sempre em outro lugar” (p. 401). O pobre Diomedes
não percebe que seu percurso é muito mais mágico e encantador do que imagina, e
que descobrir a fugacidade de tudo é justamente uma das justificativas de
admitir também o que é etéreo. Como nas melhores histórias de detetive...
Talvez como nas melhores histórias de qualquer tipo.
MUTARELLI, Lourenço. Diomedes. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Autor: Daniel Baz
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