A oralidade
contemporânea e medieval. A precisão poética do fenômeno empiricamente
fantástico. Um mundo transcendente, vasto e heterogêneo grafado em minúsculas e
entoado a partir de vírgulas e pontos finais, apenas. Assim é a escrita de
valter hugo mãe já no seu primeiro romance, o nosso reino, de 2004. O autor,
que, além de romancista, é poeta, vocalista de rock (na banda Governo), DJ e
editor de autores como Ferreira Gullar e Caetano Veloso, nos apresenta a
história do menino Benjamin, de oito anos, no seu esforço para entender a morte
e cujo desejo de transcendência o faz decidir se tornar santo junto com seu
melhor amigo, Manuel.

O impacto da
linguagem de valter hugo mãe, no entanto, não perde em nada para este causado
pela escolha de seus temas. As suas minúsculas, por exemplo, podem ser alegóricas
do pequeno, do menor, do marginal, como outros já disseram, contudo, prefiro
pensar que seu atributo essencial refira-se à indistinção no nível dos signos
usados, o que reforça a distinção do que eles produzem e revelam. Além disso,
devido ao uso exclusivo de apenas dois acentos - pontos e vírgulas - também não
há entonações diferenciadas na esfera significante. A língua é totalmente afirmativa,
ou seja, para indagar ou exclamar, algo que as personagens fazem em todas as
páginas, devemos estar familiarizados com a carga volitiva-emocional do
discurso das personagens.
Isso se
relaciona com outra característica expressiva dos livros de valter hugo mãe, o
uso indiscriminado da oralidade. A sintaxe oral empresta vivacidade para a
escrita do autor, permitindo que se explorem outras formas de organizar os
conteúdos, provenientes da instantaneidade de atos de fala. O folclore é
reinventado, pois seu perfomancer é
um menino ainda não familiarizado com a duração da oralidade, isto é, com sua
tradição, mas entende da presentificação de seus conteúdos, isto é, da sua
transmissão. Assim, a perspectiva infantil e o uso de arcaísmos também ajuda a
experimentar novos usos da linguagem. A repercussão de um mundo medieval e
infante obriga os conteúdos a conviverem com contextos sígnicos que lhe são
estranhos e cujo choque é responsável pela maioria das imagens inusitadas da
obra.
Devido a tudo
isso, a organização geral do livro é extremamente irônica. Os capítulos são
divididos em 1,2,3 até 8, de forma descomprometida e apática. Tal naturalidade
não condiz com o conteúdo plurifacetado e anômalo dos episódios relatados e
parece manter-se afastado da profusão verbal de Benjamin. Como se o paratexto
respeitasse a matéria exótica explorada.

MÃE, Valter Hugo. O nosso reino. São Paulo: Editora 34, 2012.
Autor: Daniel Baz
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