
O primeiro capítulo, “O corpo”, serve como a
primeira metonímia da liberdade, explorada pelo texto: “Na África, a falta de
pudor dos corpos era magnífica” (p. 8). Liberdade “explorada”, pois nunca
atingida plenamente pelo texto, sempre estranha ao menino, cujo corpo fica
“dolorido” e “firme” nas terras coloniais. O narrador logo deixará claro:
“eu nasci naquele tempo distante, muito longe dos adjetivos, dos substantivos” (p.
9). As palavras não só são insuficientes, como não fazem parte das atitudes
infantis de apreensão do mundo, justamente aquelas que importam para as
memórias do narrador. Também por isso, uma série de fotos, do arquivo pessoal
do autor, são utilizadas para, contrapostas ao texto, ajudar no exercício de
recuperação do passado. Ainda que no resultado final, ambos os registros sejam
complementares para entendermos o complexo de sensações envoltas na história
narrada.
A ficção de Le Clézio já começa com um mapa
- medical area - de Banso, e é pontuado por imagens que rompem com a
lógica interna da sintaxe verbal, como que pontuando os limites do signo lexical. O que é reforçado pelo fato de lermos as descrições antes de
termos acesso as imagens descritas, o que sempre resulta numa quebra brutal de
expectativa e nos coloca no impasse memória e imaginação, que é central para o
texto. Em outros trechos, o autor questiona a legitimidade do próprio discurso “Mas
pode ser que, ao descrevê-lo, eu torne por demais literário, por demais
simbólico, o furor que animava nossos braços, quando atacávamos os
cupinzeiros” (p. 27). É ainda neste
capítulo que o narrador assume como aprendeu a esquecer os rostos para conhecer
os corpos, numa ligação direta com o sugestivo último capítulo, “Esquecimento”,
e que enfatiza mais ainda um tipo de experiência física aparentemente
irrecuperável pela palavra.
A simbologia é admitida como forma para
recuperar campos semânticos de difícil apreensão. Minha parte predileta consta
no segundo capítulo “Cupins, formigas etc.” em que a relação das crianças
européias e os resignados cupins, que sofrem sem retrucar, as violentas
formigas, que sabem se defender e o fascinante escorpião, morto pelo pai,
moldam as relações sociais, principalmente entre colônia e metrópole. Além
disso, diferem os brancos dos negros, já que estes não ousam atacar a fauna
local.
Tudo compõem um espaço mítico, quase
paradisíaco: “Uma terra original, de alguma forma, onde o tempo teria dado
marcha a ré, desmanchando a trama de erros e de traições” (p. 66) A passagem
dos dias estagnava, ou até regredia. Mas a dubiedade regresso e progresso torna
a categoria temporal muito mais interessante já que o solo africano é também um espaço de
iniciação, uma “antecâmara do mundo adulto” (p. 47), deste forma, move também o
sujeito para o porvir.
Para os que acompanham o jargão de algumas
tendências atuais de estudo da literatura, ao longo do livro, alguns dos temas
principais do cardápio da crítica contemporânea são desbravados, como, por
exemplo, o exílio do pai desterrado,
o choque de culturas, a colonização e o imperialismo, a autoficção.
Mas, agrada-me observar mais a fundo o duelo entre memória e narrativa como
espaço da construção de uma identidade dupla, narrativa e pessoal, ambas
envolvendo um estilo específico e um conjunto de experiências particulares. Por
isso, opto por encerrar minhas reflexões com o complexo memória/imaginação que
foi deixado em aberto anteriormente. Complexo qu efunciona de forma complementar e que é dividido em dois aqui com fins práticos-analíticos.
O texto de Le Clézio não tem medo de ser
determinista. Foi o meio, a raça e o momento histórico, mais especificamente a
guerra, que fizeram com que seu pai se tornasse quem foi. A reverência decorre
justamente do sentimento de pertença a essa mesma trajetória, cujo acesso
envolve a união de forças entre imaginação e memória. “É escrevendo que agora o
compreendo. Essa memória não é somente a minha. E também a memória do tempo
anterior ao meu nascimento, quando meu pai e minha mãe andavam juntos pelas estradas
do planalto, nos reinos do oeste de Camarões.” (p. 115) A memória, permite que
se habite espaços imaginários, ficcionais e tomá-los mesmo que a força. Além
disso, a narrativa é o meio do memorialista fingir a organização natural dos
fatos. A sintaxe narrativa permite ao escritor e ao leitor a sensação de
domínio, da fuga da aleatoridade, pela construção de coerências semânticas
internas.
Ficamos, portanto, no impasse da primeira
pessoa, visto que não se sabe qual referente buscar. O interno que garante uma
estrutura narrativa particular, pontilhada e limitada, ou o externo, que
permite admitir no texto um campo semântico experiencial e que ressignifica a
narrativa pela ordenação dos efeitos na realidade da vida. Atestado disso, seriam
novamente aqueles vários momentos em que se reclama a limitação da palavra
escrita. Antes de serem metaficcionais, estes comentários estão medindo a experiência
do texto por outra que não lhe diz respeito.
Tudo isso nos remete ao final do século XIX,
e a crença ainda presente em textos como este de que a memória poderia ser o
eixo de ligação entre corpo e mente, um lugar privilegiado da epistemologia.
Por outro lado, para autores como Paul Ricouer, em A memória, a história, o
esquecimento, expressa-se a opinião de que na fenomenologia da memória a
pergunta “Quem lembra?” é subordinada a “O que se lembra?”, deixando de lado a
tradição filosófica e sua ênfase no lado egológico da experiência mnemônica. Quando
o narrador descobre que estavam comprando as estátuas, máscaras e tronos que
ele usava no cotidiano, isso fica ainda mais evidente, pois, a compra envolve
pessoas “para quem essas máscaras e
esses tronos não eram coisas vivas, mas sim a pele morta do que se chama com
frequência arte” (p. 69). O objeto da memória é definitivo para construirmos
uma identidade móvel, mas passível de exame. Uma identidade narrativa viva e
que busca a autenticidade artística num exercício de linguagem carregado de
experiências eticamente plausíveis.

CLÉZIO, Le. O africano. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
Daniel Baz
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