
A obra foi revolucionária
em uma série de aspectos, mas é impossível não começar falando da qualidade do
roteiro e desenhos dos autores responsáveis. O enredo é impecável e tem na
intertextualidade um dos seus mais eficazes aspectos. Rolling Stones,
Shakespeare, Ray Bradbury e Aleister Crowley são alguns dos autores que tem
suas obras citadas pelo protagonista. Num momento histórico em que a arte foi
proibida (remetendo claramente a Fahrenheit
451), as citações são apenas mais uma forma de transgressão. Um jeito de inverter
as categorias semânticas do presente com referências a campos textuais que lhe são
estranhos (neste sentido as ininterruptas indagações de Evey mostram a
discrepância entre os dois tempos).

Mas a grande
inovação está na audaciosa escolha de contar a história sem o auxílio de onomatopéias
e sem a ajuda dos balões de pensamento e dos clássicos recordatórios, ou seja,
quadros em que narrador ou personagem resumem a história, auxiliando o trabalho
seletivo do desenhista. Apesar de que há a narrativa em primeira pessoa em
algumas passagens. É espetacular
o que o texto alcança a partir destes recursos. Primeiro, privar o mundo de
manifestação sonora é uma forte sugestão dos limites impostos pela perda da
liberdade. O silêncio envolve todas as ações numa imagem magistral da
furtividade requerida por V e seus atos. Tal interpretação é análoga ao fato
dos movimentos de V não serem seguidos por linhas cinéticas, como que
aumentando o desafio de transformar o mundo através de suas ações.
A ausência
dos recordatórios funciona de forma semelhante. Obriga-nos a olhar o mundo de
dentro, sem comentários não comprometidos com os eventos. Além, é claro, de
enfatizar o envolvimento do leitor no espaço entre os quadros, já que dificulta
o processo conclusivo que envolve toda recepção de quadrinhos. Aumenta a
importância da sarjeta ou calha (espaço entre os quadros) e permite a criação
de passagens fabulosas como na página 253, onde Evey torna-se V. Aqui a pouca
mudança temporal e espacial entre os quadros, revela uma forte progressão da
personagem que resgata todo o tempo vivido até ali. Uso genial de uma arte em
que o tempo é construído espacialmente. O último quadro, quando o sorriso de
Evey torna-se o mesmo de V, é mais largo, o que também é um aspecto de captura
temporal mais ampla, mais densa por parte do artista.
Quanto aos
balões, como já disse Eisner, estes podem funcionar como a emanação física de
um personagem, uma sinédoque de si. Os de V são ondulados e sinuosos, que
normalmente são usados em pensamentos ou falas no passado, perfeitos, portanto,
para um sujeito antiquado e que vive uma ideia, há neles um aspecto icônico que
complementa a imagem do personagem
Por fim, vou
falar ainda de duas cenas, que provam mais uma vez a eficácia técnica de dois
mestres da linguagem. Começando pelos padrões curvos da página 235 até 239 que precedem
a grande reviravolta da história. Repetidos na escada em caracol ensaguentada,
que forma um círculo, mas não sem fim. A espiral é a imagem de algo que progride
ainda que de forma circular, não unidirecional, como o percurso de Evey e V.

Celebremos, portanto, o 5 de
novembro. Comemoremos o pop top.
MOORE, Alan; LOYD, David. V de Vingança. São Paulo: Panini Books, 2012.
Autor: Daniel Baz
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